Somos Neguinhas e nosso lugar é onde a gente quiser!

17/set/2014, 12h08

As mesmas redes sociais que impulsionam politizadas e grandes mobilizações, como as Jornadas de Junho (2013), são as mesmas que servem como plataforma para a disseminação do racismo e perpetuação do machismo. Não é raro encontrar páginas e perfis de facebook, sites na internet que disseminam o ódio e a intolerância associados aos diversos tipos de opressão, em especial os ligados à misoginia, orientação sexual e cor da pele. Cabe a todxs nós lutarmos contra esse mal dentro e fora das redes, para que ela não passe de instrumento de rompimento com a história de opressão a veículo de transmissão do preconceito.

Constantemente querem nos fazer crer que o racismo não existe, pois é cômodo e favorece a manutenção do sistema racista. Entretanto nos deparamos com o seriado mais recente da rede Globo – Sexo e as Negas– que mais uma vez estereotipa padrões de mulheres negras e as aprisiona nos lugares da periferia, nos papeis da hipersexualização, da serviçal e do cômico ou, com práticas racistas dentro do mundo esportivo, como foi o caso do jogador Obina, Tinga, Aranha, Ronaldinho Gaúcho, etc, mas o sistema ainda é SIM opressor, violento, machista e, sobretudo racista.

Nós, mulheres negras, somos julgadas por ser mulheres e condenadas pela cor da nossa pele. Querem nos embranquecer, vendendo padrões de cabelos lisos, rosto afinado, pele branca, morena e não nos esqueçamos da mula-ta para o coito. Todavia, a luta é essencial, ressaltando que – ao contrário do que o senso comum prega – essa construção social está longe de ser natural. Nada deve parecer natural e impossível de mudar!

A estudante da UFPA, Sônia Regina Abreu, foi violentada por um ataque racista e machista ao ser ameaçada de violência sexual e morte, inferiorizada por ser NEGRA. Absurdos como “…Neguinhas como você a gente ESTUPRA E DEPOIS QUEIMA…” foram usados para incitar o ódio e a violência sexual contra mulheres negras. Somos NEGUINHAS, mas não as tuas Nêgas, nem a de nenhuma emissora, nem do sistema. Ser NEGUINHA não é insulto e sim, a valorização de uma diversidade de cor de pele, que nós temos orgulho de ostentar: SOMOS MULHERES E NEGRAS.

Da senzala já saímos e ocupamos a casa grande, mas nos orgulhamos da nossa Africanidade que foi escravizada pelo sistema opressor que hierarquiza mulheres. Em nosso sangue negro pulsa o sangue de nossas Guerreiras e Rainhas Negras que aqui foram desumanamente acorrentadas aos desejos porcos dos senhores que nos viam como mula-tas. Mas, somos Guerreiras Negras e lutaremos contra todo sistema machista, racista e homofóbico, quantas Sônias forem violentadas, nós resistiremos até que vocês voltem para o “7 palmos” de onde vieram.

O ocorrido serviu como mais um exemplo de como a mulher – principalmente a negra –ainda hoje é encarcerada no corpo hipersexualizado e na mão de obra barata.  Nos invisibilizam ou representam da forma mais vil possível o que é ser mulher. São Sônias, mas também são Cláudias – como Claudia Ferreira da Silva, mulher negra e pobre, arrastada covardemente até a sua morte – onde pouca justiça se fez.

Foi necessária muita luta para a inclusão, mesmo longe do ideal, de mulheres negras no ensino superior, ainda assim, somos poucas nas escolas, nas Universidades, nos parlamentos, a mão-de-obra mais precarizada, vítimas do racismo institucional, etc. Sônia Regina que conquistou esse espaço até um tempo atrás considerado uma realidade distante, sua vitória não pode ser desqualificada ou diminuída, pois além de sua, é nossa vitória. Resistamos!

Fomos estupradas nas senzalas, torturadas e mortas. E continuamos a morrer diariamente; a camareira, a doméstica, aquela que limpa o chão. Morremos todos os dias, pouco a pouco, silenciadas por um sistema onde não há espaço para a nossa voz.

Enquanto Sônias existirem, seguiremos Juntas contra o machismo, racismo, lesbofobia, transfobia e NÃO, nos calaremos.
Somos todas Sônia Abreu, mulheres que lutam.

 

#SomosTodxsSôniaRegina

#RacismoTôFora

 

Por Caroline Vilar* estudante de Engenharia Sanitária, Flávia Câmara** Psicóloga e Rayanna Dolores*** estudante de Economia Militantes do Juntas! – Pará.