Revolta da Água

23/out/2014, 10h15

Guilherme Boulos

Cochabamba, Bolívia. Entre janeiro e abril de 2000, milhares de pessoas foram às ruas numa revolta popular que ficou conhecida como Guerra da Água. No ano anterior, o serviço de abastecimento havia sido privatizado e as tarifas aumentaram 100%. Os mais pobres ficaram sem água. O povo foi às ruas com amplas mobilizações, que derrubaram o prefeito da cidade.

O presidente Hugo Banzer decretou estado de sítio e a Bolívia se transformou num campo de batalha. Após 3 meses de revolta, suspenderam a privatização e o reajuste abusivo.

São Paulo, Brasil. Outubro de 2014. 60% dos moradores da maior cidade do país registram falta de água em suas casas. O canal de abastecimento de mais de 20 milhões de pessoas está à beira do colapso completo. Se não chover mais do que o previsto, São Paulo seca no primeiro semestre de 2015.

A Região Metropolitana é abastecida por seis sistemas de reservatórios, sendo três mais importantes.
O Cantareira – que tem a situação mais grave – está com 3,3% da capacidade e perde em média 0,2% ao dia. Somando isso à segunda fase do volume morto espera-se mais uns três meses. O Alto Tietê está com 9% e perde também entorno de 0,2% ao dia. O Guarapiranga está com 43% e vem caindo entre 0,3% e 0,5% ao dia.

Até o primeiro turno das eleições a situação foi vergonhosamente ocultada pelo governo estadual, responsável pelo abastecimento. Apesar do racionamento noturno nos bairros da periferia, a Sabesp sustentava normalidade e afirmava que o desabastecimento sistemático era ficção eleitoreira. Três dias depois da reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB), a presidente da Sabesp, Dilma Pena, admitiu a falta de água. Alguns dias após, pediu demissão, mas o governo estadual pediu que ela ficasse no cargo até o final do ano, conforme informações publicadas no Painel da Folha.

A ordem parece ser – repetindo a dose – não tomar nenhuma medida drástica até o segundo turno, na tentativa de eleger Aécio Neves (PSDB). Mas a realidade transborda o discurso, ou melhor, seca. A falta de água se generalizou na capital paulista, inclusive em bairros centrais. Na periferia, evidentemente, o impacto é sempre maior. Semana passada, moradores de Itaquera relataram que escolas públicas dispensaram os alunos por falta de água. Bairros de Carapicuíba ficaram cinco dias seguidos com torneira seca. Um condomínio popular da CDHU no Campo Limpo ficou 15 dias.

Imaginem depois de 26 de outubro! Racionamento oficial, proibição de lavar carros e calçadas, limitação para a construção de novos prédios e definição de prioridades no abastecimento são medidas que podem vir por aí. Isso evidentemente terá impacto sobre a vida das pessoas, além da falta de água para consumo. O fechamento de estabelecimentos comerciais e de serviços, bem como o desaquecimento da construção civil, devem produzir grave desemprego em São Paulo. A limitação no abastecimento aumentará ainda o preço dos alimentos, já que a agricultura é potencial consumidora de água.

Cenário catastrófico? Invenção política? Há um mês o racionamento era ficção. Veremos o que os próximos meses nos reservam. Em Itu, depois de mobilizações populares por dias seguidos sem água, os caminhões-pipa circulam agora com escolta armada. Em Campinas, as manifestações também já começaram a surgir.

O argumento para a contenção social de que estamos diante de um fenômeno climático, sem responsabilidades políticas, torna-se cada vez mais insustentável. A relatora da ONU para a questão da água se manifestou responsabilizando o governo tucano de São Paulo por falta de investimentos e planejamento. E não é só ela. Pesquisa Datafolha publicada nesta semana mostrou que 75% dos paulistanos acreditam que a crise poderia ter sido evitada.

O Ministério Público, por meio do promotor Rodrigo Sanches Garcia, denunciou também a lógica de subordinar o abastecimento da população ao lucro dos acionistas da Sabesp. Diz ele: “A intenção da Sabesp era tirar água enquanto pudesse, inclusive para não ter que decretar racionamento. Sempre com a lógica, não da preservação do sistema, mas do quanto se pode retirar de água. Porque água é dinheiro”.

E mais: “Neste período (2012 e 13), o Sistema Cantareira foi responsável por 73,2% da receita bruta operacional da empresa, denotando a superexploração daquele sistema produtor que não mais conseguiu se recuperar diante da gravidade do atual evento climático de escassez”.

Portanto, deixem são Pedro em paz! O problema climático apenas evidenciou a política privatizadora de jorrar lucros para acionistas em detrimento dos investimentos necessários para que as torneiras jorrassem água. Mas o preço agora pode sair alto.

Assim como a reeleição folgada de Alckmin pode vir a ter um gosto amargo. O PSDB conseguiu evitar a batalha do segundo turno, mas não será tão fácil evitar a batalha das ruas. Já começaram a aparecer os primeiros sinais da Revolta da Água. Campinas, Itu e caminhões-pipa escoltados servem para acordar os incrédulos. Se alguém quer conhecer os limites da paciência do povo, deixe uma família sem água por dias a fio.

Emblemático será ver a PM de São Paulo tentar reprimir a indignação popular com os quatro blindados com canhões de água adquiridos no ano passado por R$ 1,8 milhão cada. Pode ser a gota d’água.

Guilherme Boulos é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Também atua na Frente de Resistência Urbana e é autor do livro “Por que Ocupamos: uma Introdução à Luta dos Sem-Teto”.

Fonte: Folha de SP

 

 

No dia 1° vamos para a rua manifestar toda nossa indignação com a pior crise da água dos últimos tempos. Vamos Juntos exigir soluções!

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Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017