De Michael Brown a Assata Shakur, o estado racista dos Estados Unidos Persiste

26/nov/2014, 16h32

*Por Angela Davis

Aqueles que resistem são tratados como terroristas – como em Ferguson este ano, e como eu e outros ativistas negros fomos nos anos 60 e 70

Protesters confront police following George Zimmerman's acquittal for the killing of Trayvon Martin.

Manifestantes confrontam oficiais de polícia após a absolvição de George Zimmerman pela morte de Trayvon Martin. Fotografia: Zhao Hanrong/Xinhua Press/Corbis

 

Mesmo que a violência racista do estado tenha sido um tema consistente na história das pessoas com ascendência africana na América do Norte, ela vem sendo especialmente notável durante a administração do primeiro presidente afro-americano, do qual a própria eleição foi interpretada como a proclamação do advento de uma nova era pós-racial.

A absoluta insistência dos assassinatos da juventude negra por parte da polícia contradiz a suposição de que esses casos são aberrações isoladas. Trayvon Martin na Flórida e Michael Brown em Ferguson, Missouri, são apenas os mais conhecidos dos incontáveis números de pessoas negras mortas pela polícia ou justiceiros durante a administração Obama. E eles, por sua vez, representam uma sequência ininterrupta de violência racista, oficial e extraoficialmente, de patrulhas escravistas e da Ku Klux Klan, até práticas de estereotipação  contemporânea ou de justiceiros dos tempos modernos.

Mais do que três décadas atrás Assata Shakur recebeu asilo político de Cuba, onde ele viveu desde então, estudou e trabalhou como um membro produtivo da sociedade. Assata foi falsamente acusado em inúmeras ocasiões nos Estados Unidos durante o início dos anos 70 e vilanizado pela mídia. A mídia a representava em termos machistas como a “galinha mãe” do Exército de Libertação Negro, que por sua vez foi descrito como o grupo com propensões insaciavelmente violentas. Colocada na lista dos 10 mais procurados do FBI, ela foi acusada de assalto armado, assalto a banco, sequestro, homicídio e tentativa de homicídio de um policial. Apesar de ela responder em 10 diferentes processos legais e já ter sido considerada culpada pela mídia, todos, com exceção de um destes julgamentos – o caso resultante de sua captura- terminaram com sua absolvição ou dissolução do júri. Sob altamente questionáveis circunstâncias, ela foi finalmente condenada por ser cúmplice no homicídio de um policial de Nova Jersey.

Quatro décadas depois da campanha original contra ela, o FBI decidiu demonizá-la mais uma vez. Ano passado, 40 anos após o tiroteio na New Jersey Turnpike em que o policial Werner Foerster foi morto, Assata foi cerimonialmente adicionada à lista dos 10 mais procurados do FBI. Para muitos, a atitude do FBI foi bizarra e incompreensível, levando à pergunta óbvia: Que interesse teria o FBI em considerar uma senhora negra de 66 anos, que viveu silenciosamente em Cuba pelos últimos 35 anos, como uma das mais perigosas terroristas do mundo – compartilhando espaço na lista com indivíduos cujas alegadas ações provocaram investidas militares no Iraque, Afeganistão e Síria?

Uma parcial – talvez até determinante – resposta para essa pergunta pode ser descoberta no alargamento do alcance da definição de “terror”, especialmente e temporalmente. Seguindo a definição de Nelson Mandela e do Congresso como “terroristas” pelo governo da África do Sul durante o Apartheid, o termo foi abundantemente aplicado aos ativistas da libertação negra nos EUA durante o fim dos anos 60 e o começo dos anos 70.

A retórica de lei e ordem do Presidente Nixon ocasionou a rotulação de grupos como o Partido dos Panteras Negras como terroristas, comigo mesma sendo similarmente identificada. Mas não foi até que o Presidente George W Bush proclamou um guerra global ao terror depois do 11 de Setembro que os terroristas passaram a representar o inimigo universal da “democracia” ocidental. Para retroativamente implicar Assata Shakur em uma conspiração putativa contemporânea também é tentar trazer aqueles que herdaram seu legado, e quem se identificado com as lutas continuadas contra o racismo e capitalismo, sob o dossel da “violência terrorista”. Além disso, o anticomunismo histórico direcionado a Cuba, onde Assata vive, vem sendo perigosamente articulado com o antiterrorismo. O caso dos 5 de Cuba é um ótimo exemplo disso.

Este uso da guerra ao terror como uma abrangente designação do projeto da democracia ocidental do século XXI serviu como justificativa do racismo anti-islâmico; ela legitimou mais tarde a ocupação da Palestina por Israel; ela redefiniu a repressão aos imigrantes; e indiretamente levou à militarização de departamentos de polícia locais por todo o país. Os departamentos de polícia – inclusive nos campi de faculdades e universidades – adquiriram os restos de armamento das guerras no Iraque e no Afeganistão através do “Programa de Excesso de Propriedade do Departamento de Defesa”. Ainda, em resposta ao recente assassinato de Michael Brown pela polícia, manifestantes desafiando a violência racista da polícia foram confrontados por oficiais de polícia vestidos em uniformes camuflados, com armamento de nível militar, dirigindo veículos blindados.

A resposta global para o assassinato de um adolescente negro pela polícia em uma pequena cidade no Meio-Oeste dos Estados Unidos indica uma crescente consciência com relação ao persistente racismo dos EUA em um momento em que ele deveria estar diminuindo. O legado de Assata representa uma ordem para ampliar e aprofundar as lutas contra o racismo. Em sua autobiografia publicada esse ano, invocando a tradição radical negra da luta, ela nos pede para “Seguir em frente. / Passar à frente para as crianças. / Passar à frente. Seguir em frente… / Para a liberdade!”

 

Texto Original escrito por Angela Davis, publicado no The Guardian. Traduzido por Thalles Sales, do Juntos BH.

Texto Original: http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/nov/01/michael-brown-assata-shakur-racist-state-of-america?CMP=share_btn_fb