Luciana Genro: Agora é seguir a luta por mais direitos!

18/nov/2014, 08h14

Luciana Genro

Logo após o segundo turno voltamos ao mundo real. Reeleita, a presidenta Dilma Rousseff voltou a falar aos banqueiros e grandes capitalistas. A alta dos juros e da gasolina foram sinais para ganhar confiança. Depois de tantas promessas de melhorar a vida do povo, a melhora foi para o “Bolsa Banqueiro”, não para o Bolsa Família.

Ainda assim, o PSDB e os mercados reclamam do governo, pois querem mais superavit, dando ainda mais garantias ao capital financeiro.

Como previsto, no fim do segundo turno o discurso de esquerda do PT foi enterrado. Sem pressão popular, Dilma fará o que ela dizia que Aécio Neves iria fazer: um ajuste nas costas do povo para garantir o pagamento de juros às 5.000 famílias mais ricas do Brasil.

Junto com a crise econômica, a crise política. Os executivos das maiores empreiteiras do país foram presos. Essas empreiteiras, que são também as maiores doadoras das campanhas eleitorais do PT, PSDB, PMDB e demais partidos do sistema, são parte de um dos maiores escândalos de corrupção já revelados.

Mas o que apareceu ainda é muito pouco. Até por que essas empresas atuam em todas as obras do governo. O que indica que as obras devem sofrer do mesmo mal: superfaturamento, propinas, desvios. As alegações tão comuns do tipo “eu não sabia” resultam ridículas diante da realidade inquestionável de que todos os que estão no poder conhecem perfeitamente a dimensão corrupta desse sistema político.

A corrupção é parte do funcionamento do sistema, não um caso isolado que se resolve apenas com mais transparência. O acordo entre PT e PSDB para não convocar políticos para depor na CPI é mais uma demonstração daquilo que na campanha eu chamei de “sujo falando do mal lavado”.

No discurso da vitória, Dilma falou em convocar um plebiscito para fazer a reforma política. Em junho de 2013, sem saber o que fazer diante das mobilizações nas ruas, a presidenta já havia levantado essa proposta. Mas Dilma não levou a ideia adiante nem lutou por ela e, agora, ocorre a mesma coisa, diante da resistência do PMDB, que como o PSDB e seus amigos, quer que apenas o Congresso decida.

O PSOL tem lado nesse jogo. É preciso lutar por saúde, educação, moradia popular, transporte de qualidade e até pelo direito à água. É preciso combater a violência contra os pobres, expressa na estarrecedora chacina de Belém do Pará. Para isso, vamos enfrentar tanto a direita como o governo, que é o agente de aplicação dos planos do capital.

Sem participação popular, a reforma política será para pior. A imposição de uma cláusula de barreira está na pauta. Com a desculpa de acabar com os partidos fisiológicos, querem garantir maior estabilidade para o capital, de forma que tudo continue igual quando muda o governo.

O peso do poder econômico e da grande mídia transforma as eleições em uma expressão distorcida da vontade do povo. O dinheiro das empreiteiras corruptas irrigou quase todas as campanhas. O PSOL é o único partido com representação no Congresso que estatutariamente proíbe seus candidatos de receber doações de empreiteiras, bancos e multinacionais.

Mesmo com uma campanha quase sem recursos, dobramos nossa votação para a Presidência da República e dobramos o tamanho das bancadas em relação a 2010 porque as jornadas de junho se expressaram no processo eleitoral, ainda que de forma minoritária.

O povo brasileiro não caminha para a direita. O PT foi vítima do voto de protesto, e muitos que ainda votaram no PT o fizeram por medo de que a direita retome o governo diretamente. Mas sem uma alternativa de esquerda esse é um caminho inevitável, e o PT no poder já faz o que os capitalistas mandam.

É preciso seguir a luta por mais direitos, unir a esquerda coerente e construir uma alternativa de mudança para melhor.

Luciana Genro é advogada, fundadora do PSOL e foi porta-voz do partido nas eleições presidenciais de 2014

Artigo publicado na Folha de SP