Meryem Kobane: “A resistência de Kobane é a luz para um novo Oriente Médio e uma nova sociedade”

11/nov/2014, 12h13

José Miguel Arrugaeta y Orsola Casagrande
Rebelión

As mulheres na Revolução de Rojavadesempenharam desde o início um papel fundamental tanto na construção de novas instituições políticas das regiões autônomas (conselhos do povo, escolas, associações, etc) como na redação do Acordo Social (Carta Constitucional com muitos elementos inovadores e únicos que é parte da construção da nova sociedade em Rojava), e também na defesa da Autonomia proclamada nessa região. As mulheres têm dado a vida pelas unidades de defesa populares, milícias armadas formadas apenas por mulheres.

A batalha de Kobane, com os curdos defendendo sua cidade contra o bem equipado Estado Islâmico, já dura mais de 40 dias e está sendo dirigida por duas mulheres comandantes. Em condições extremamente complicadas, porque os combates são fortemente violentos, uma delas, a comandante Meryem Kobane aceitou conversar com La Directa pelo telefone.

A comunicação é muito difícil, a linha cai algumas vezes e a entrevista se alonga por vários dias. Meryem Kobane está literalmente na linha de frente, com sua arma na mão, combatendo e dirigindo suas unidades integradas por jovens, mulheres e homens. Os ataques do ISIS são ferozes, nos últimos dias os islamistas- que já estão esgotando seus armamentos e pagam um alto preço em baixas frente a férrea determinação dos milicianos e milicianas kurdos- já começaram a utilizar carros-bomba em uma tentativa desesperada de ganhar terreno. As milícias populares do YPJ e do YPG continuam rechaçando os ataques. Meryem Kobane recorda os numerosos companheiros e companheiras que já caíram nesta heroica batalha pela liberdade e pela diversidade, e assegura com firmeza que a cidade não apenas será defendida mas também libertada totalmente.

Como comandante-em-chefe e mulher na batalha de Kobane pode nos explicar o processo de formação das YPJ (Unidades de Defesa das Mulheres) e seu papel na defesa da cidade?

As mulheres no mundo e especialmente nos países que se dizem democráticos ainda não conseguiram conquistar uma participação autônoma e independente porque as sociedades machistas e patriarcais continuam marcando todas as esferas da vida desde tempos imemoriais.
Se revisitarmos a história das mulheres podemos ver claramente, por exemplo, na América Latina, Vietnam e outros lugares do mundo, que temos participado em lutas muito importantes, mas nosso papel sempre tem sido relegado para um segundo plano.
Quando começamos a revolução em Rojava constatando esses antecedentes, nós como mulheres tomamos a decisão de formar uma organização separada com o objetivo de promover nossa participação nesta revolução como um selo distintivo no Oriente Médio. Por isso um comitê fundador de cinco mulheres, do qual fiz parte, formamos a YPJ em Rojava. Fomos de casa em casa, rua por rua para falar e organizar as mulheres até o ponto de formamos um exército. Este exército de mulheres desempenha hoje um papel proeminente tanto na defesa de Kobane como em todo o território de Rojava. Eu faço parte desta resistência não apenas como uma curda que se chama Meryem Kobane, mas também como se fosse uma mulher africana, vietnamita, latino-americana ou europeia, representando todas elas nesta cidade. Eu estou aqui em nome de qualquer mulher do mundo porque sou parte delas.

Quarenta dias de assédio, a resistência de vocês põe em evidência a inoperância e hipocrisia dos que se declaram em guerra contra o Estado Islâmico. Por que e para que vocês defendem Kobane?

Os que declaram guerra contra o Estado Islâmico se renderam a eles em cidades como Deyra Zor e Mosul, que resistiram apenas uma noite. Kobane não é maior que um bairro de Mosul. As cidade Deyra Zor, Minbic, Raqqa e Jarablus, na Síria, foram tomadas das mãos do Exército Livre Sírio pelas forças do ISIS em um só dia. De pronto se previu que Kobane não duraria uma semana, no entanto está resistindo faz um mês e meios, e as forças do EI não foram capazes de conquistá-la apesar de ter superioridade numérica e técnica. Avançaram até Kobane com 40 tanques e material capturado em Mosul, assim como provisões capturadas do Exército do Regime sírio. Quando começou a batalha comparei Kobane com Stalingrado porque estamos defendendo a cidade com uma resistência similar à essa cidade por mais de quarenta dias. Kobane não combate apenas em defesa própria, Kobane combate o terrorismo em nome da humanidade. Kobane combate uma mentalidade que rebaixa às mulheres e perpetra uma violência extrema contra elas. Logo, estamos combatendo em nome da humanidade contra uma forma de pensar que não reconhece religiões, etnias, línguas… Perdemos destacados comandantes nesta batalha, perdemos companheiros e companheiras jovens e valentes, a defesa de Kobane representa neste sentido a defesa da humanidade e da nação do povo do Curdistão.

Entre vocês existem majoritariamente curdos mas também membros de outras comunidades e religiões. Por que? Como se articula esta relação na luta diária?

Não existem diferenças entre combatentes do YPG e do YPJ, todos lutamos por uma Síria e um Oriente Médio democráticos. É verdade que em nossas fileiras há combatentes provenientes de todas as comunidades étnicas e religiosas. Nossos combatentes estabelecem relações entre eles sob uma filosofia democrática. Respeitamos a língua, a cultura e a fé de cada um. Todos os combatentes estão aqui lutando precisamente para proteger a diversidade e a liberação de gênero. Neste sentido nossos voluntários não têm uma atitude para com as diferenças e a diversidade.

Homens e mulheres lutando de arma na mão, ombro a ombro?

Na realidade, nós nos deparamos com muitas dificuldades. A atitude inicial dos homens foi de falta de confiança nas mulheres. Alguns expressaram preocupações do tipo “como podem mulheres manter uma posição e combater?” Contudo nós mulheres temos demonstrado uma atitude de enorme auto-sacrifício: reservam a última bala para elas justamente para não abandonar posições, escondem bombas em seus corpos e as acionam no meio dos combatentes do ISIS, utilizam todo tipo de armas em uma batalha que posso dizer com autoridade está sendo liderada por mulheres. As duas comandantes-em-chefe desta batalha somos mulheres. Um número importante de novos combatentes impressionados por esta atitude de determinação integram nossas fileiras e começam a combater sob o mando de oficiais mulheres. Neste sentido, as mulheres não estão combatendo apenas o Estado Islâmico. Também lutam contra a mentalidade “macho dominante” entre nós mesmos e têm desmontado tabus. A resistência em Kobane está sendo dirigida por mulheres que ao mesmo tempo que combatem o ISIS, destroem valores machistas e favorecem uma atitude libertária para com as mulheres para que possamos ocupar um lugar numa nova sociedade.

Sobram declarações e faltam as armas adequadas, abastecimentos e via livre para os reforços. O que lhes faz falta concretamente para frear e vencer o ISIS em Kobane?

Pode ser que o mundo não acredite na heroica resistência que estamos fazendo aqui e agora, mas se sobrevivermos seremos nós quem contaremos esta história ao mundo. Sem dúvida, necessitamos muitas coisas, dado que estamos lutando com fuzis AK contra tanques e armas pesadas. Necessitamos o apoio do mundo porque precisamente nos fazem falta armas para resistir a superioridade técnica e material do Estado Islâmico. Nos fazem falta munições mas também apoio moral. Na batalha de Kobane o ISIS detonou catorze veículos-bomba, tem artilharia pesada. O que nos faz falta para derrotá-los, são armas e a abertura de um corredor de abastecimento.

Damasco, Bagdá, Erbil, Washington, Bruxelas… mostram certa admiração pela resistência de vocês, mas não fazem nada de concreto enquanto vocês se desgastam, batalhando rua à rua. Desconfiam dos turcos que reclamam sua autodeterminação e autonomia.

Não é suficiente admirar nossa resistência ou enviar ajuda. Pode ser que esta resistência seja contada nos livros, mas tampouco é suficiente. Todos deveriam particiapar e unir-se a esta resistência. Kobane não é tema de manchetes nem uma história rotineira, Kobane é uma epopeia. Enquanto nossos combatentes desafiam a morte aqui, lutando e morrendo em defesa da humanidade, as potências que parecem admirar nossa atitude não estão nos dando nenhuma assistêmcia. Nós queremos Autonomia para os povos, para nós essa é a via rumo a libertação dos povos e uma pequena luz de liberdade para os oprimidos do Oriente Médio.

Para o estado turco parece que vocês são uma ameça muito mais perigosa que qualquer EI ou similar. Por que esse receio com os curdos?

O Estado turco está muito vinculado com o ISIS, não obstante a repressão que estamos sofrendo, pode representar uma grave ameça para nossa vizinha, Turquia, amanhã. Através da história, os curdos estiveram ao lado dos turcos e lhes ajudaram quando eles vivenciaram situações difíceis. Hoje temos dificuldades para compreender a atitude do Estado turco para com as regiões de Rojava e para com nossa identidade. Turquia se posicionou contra nós e não ao nosso lado. Pedimos que o Estado turco abandone esta atitude hostil. A razão deste receio contra os curdos se dá pelo fado de que os curdos somos a única força que se levanta contra a mentalidade uniformizadora e de negação e contra a estrutura mesma do Estado turco. Somos a força que exige democracia.

O projeto de Autonomia Democrática é considerado perigoso por muitos, incluindo o Ocidente.

A verdade é que nós também temos dificuldade de compreender porque o auto-governo de um povo é considerado “perigoso”. Há muitos modelos de Autonomia similares como a Suíça e outros na mesma Europa. Parece-me que temos que perguntar a estes países porque nos consideram tão perigosos.

Você pode nos dar uma balanço aproximado do custo humano desta batalha que vocês estão fazendo?

Não temos dados confirmados. Perdemos muitos combatentes nesta violenta batalha que estamos enfrentando abertamente e com transparência, sem esconder informação à opinião pública. Os dados que podemos verificar nós compartilhamos com a opinião pública de maneira regular mediante nossos informes de imprensa.

A resistência de Kobane já modificou o equilíbrio na região. Como pode afetar o processo de diálogo na Turquia, e as relações com o Governo regional do Curdistão do Iraque, especialmente depois dos ocorridos em Sinjar? (referência à inesperada retirada dos peshmerga que deixou os curdos yazides a mercê dos islamistas, provocando assim a formação de um Aliança anti-Estado Islâmico encabeçada pelos Estados Unidos)

Depois de Sinjar, é evidente que as relações com o Curdistão do Sul chegaram a um ponto no qual é essencial uma maior ação conjunta. Nossa resistência em Kobane pode ter um impacto na posição do Estado turco conosco; no entanto, não sabemos ainda que influência poderia ter no processo de diálogo. O Estado turco poderia adotar uma atitude muito mais agressiva a partir do que está se sucedendo em Kobane, neste sentido teremos que ver a prática e os passos que forem se dando, de acordo com os acontecimentos dos próximos dias. O impacto de Kobane no Oriente Médio me parece que será similar ao que Stalingrado produziu no equilíbrio internacional. Nossa resistência permitiu trazer para o primeiro plano o status do povo curdo. Podemos dizer que se criou um espaço para os curdos neste novo mundo.

Que relações vocês têm com a chamada oposição síria e com as forças do Governo sírio?

Não temos nenhuma relação com o Regime sírio. Em relação à oposição, combatemos em aliança com a unidade Burkan Al Firat que criamos conjuntamente com militantes do Exército Livre sírio. Não temos nenhuma outra relação ou aliança.

 

Traduzido do espanhol para o português por Charles Rosa

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