“O Podemos é a expressão política de uma mudança substancial na sociedade espanhola”

02/nov/2014, 15h24

MADRI (Reuters) – O partido Podemos, de apenas 10 meses de existência, tornou-se a principal força política da Espanha, um ano antes das eleições nacionais, informou uma pesquisa de opinião neste domingo, abalando o sistema bipartidário dominante desde o retorno do país à democracia na década de 1970.

O Podemos, liderado pelo cientista político de 36 anos Pablo Iglesias, tem reunido o sentimento anti-establishment há meses ao atrair jovens para a política após o movimento dos “Indignados” que ocupou as praças espanholas três anos atrás pedindo um novo modelo político.

O firme crescimento do Podemos nas pesquisas adiciona pressão ao governista Partido Popular (PP) e ao oposicionista Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) na disputa, já pressionados por temas como a independência da Catalunha, casos de corrupção e economia fraca. A pesquisa da Metroscopia publicada neste domingo pelo jornal El Pais marcou a primeira vez que a nova força esteve em primeiro em uma eleição nacional.

De acordo com a pesquisa, o Podemos venceria com 27,7 por cento dos votos caso a eleição ocorresse hoje, à frente do oposicionista PSOE com 26,2 por cento. O PP ficaria em terceiro com 20,7 por cento.

Leia abaixo uma entrevista do portal Esquerda.Net com Nacho Alvarez, professor na Universidade de Valladolid e economista do Podemos, a respeito da atual conjuntura espanhola e do que o Podemos propõe para alterá-la:

 

Qual a situação econômica na Espanha?

Nacho Alvarez: A situação econômica na Espanha continua a ser, neste momento, uma situação de crise. A crise foi muito dura: 5,5 milhões de desempregados, centenas de milhares de pessoas despejadas, jovens que se vão embora do país. A situação continua a ser má, porque, apesar de alguns indicadores melhorarem levemente, a situação social não se altera. Por exemplo, cria-se emprego, porém o emprego criado é muito pouco e sobretudo é de muito má qualidade. Em Espanha, mais de 800 mil pessoas trabalham uma só hora por semana. Estes são os dados do emprego. A situação continua a ser de crise e continua a ser uma situação que não permite pensar na melhoria das condições de vida da população.

O que é que o Podemos, a nova força política da Espanha, propõe face a essa situação económica?

A primeira coisa que o Podemos propõe, no campo econômico, é cortar com a política que se aplicou até agora. Aplicou-se uma política que tem gerido a crise em benefício das elites, das oligarquias econômicas, financeiras e políticas. E, há que mudar. A primeira questão que colocamos é que a política de austeridade, de cortes das despesas públicas e dos salários tem de terminar. É necessário passar ao contrário: a uma recuperação dos serviços públicos, da segurança social e dos salários. Em segundo lugar, é necessário remover o tampão que, neste momento, trava o crescimento da economia espanhola. É necessário reestruturar a dívida tanto pública como privada em Espanha e para isso é necessário iniciar um processo de auditoria, que audite a situação da dívida pública. E, em terceiro lugar, é necessário utilizar o setor financeiro em benefício da recuperação econômica e em benefício das necessidades sociais. A Espanha tem um banco que neste momento é público, que foi nacionalizado, é o Bankia, esse banco tem de servir para que o crédito volte a fluir, para que vá para as famílias, para as pequenas empresas, para que se crie habitação social e para que em definitivo seja um instrumento de apoio à recuperação econômica e às necessidades sociais e não, como até agora, que é simplesmente um banco zombie que não se utiliza em benefício social.

Quais são os objetivos políticos do Podemos, neste momento?

O Podemos é a expressão política de uma mudança substancial que houve na sociedade espanhola. Modificaram-se os vetores fundamentais que, por debaixo do que aparentemente se via, estruturam a maioria social espanhola. Há novos vetores que estruturam essa maioria social que passam fundamentalmente por um desacordo, um grande desacordo, com a política aplicada pelo governo durante a crise, tanto o governo socialista como o governo popular. As pessoas interpretam que essa política foi uma política em benefício das elites, das oligarquias e da casta. E, portanto, o Podemos é a expressão política do que antes foi a mobilização popular, da mobilização das Marés, do 15 M. Não representa essas mobilizações, é a expressão política dessas mobilizações e, portanto, é capaz de recorrer, de alguma forma, aos novos vetores que aglutinam neste momento a maioria social. Vetores que passam por uma crítica radical à corrupção, ao sistema de corrupção, e ao próprio bipartidarismo em Espanha. Tanto o partido Popular como o partido socialista acordaram uma gestão da crise que tratava em definitivo de salvar os interesses das oligarquias econômicas e políticas contra os interesses da maioria social. Isso é o que o Podemos impugnou, isso é o que o Podemos representa, algo diferente e algo que rompe com essa lógica de bipartidarismo e de política ao serviço das castas corruptas no nosso país.

Um problema importante em Espanha é a questão catalã. Qual a posição do Podemos face ao referendo de 9 de novembro de 2014 na Catalunha?

A posição do Podemos face ao tema catalão é inequívoca. O que nós colocamos é que em democracia os problemas resolvem-se com mais democracia. O Podemos não é um partido independentista, de forma nenhuma. Mas o que podemos colocar neste momento é que é necessário que perante problemas democráticos se aperfeiçoem as ferramentas democráticas com que contamos. Não se pode utilizar a lei para travar a vontade popular e a vontade democrática de um povo que quer decidir. O direito de decidir tem que ser contemplado e tem que ser utilizado precisamente para resolver estes problemas democráticos. Ora bem, a partir do Podemos convidamos os catalães, os bascos, os irmãos dos espanhóis que querem exercer o direito de decidir a que o façamos todos juntos e que fiquemos todos juntos precisamente para lançar um projeto constituinte que mude o país e um processo constituinte que termine com o regime de 1978 e que abra um novo período no conjunto do Estado.

Entrevista realizada por Carlos Santos e Nino Alves.

 

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