A briga de Pitty não é com Anitta. É com o machismo!

04/dez/2014, 14h05

*Por Juntas Coletivo

Neste sábado o Programa da Rede Globo Altas Horas discutirá sobre feminilidade. Antes mesmo de ir ao ar, o programa já está ganhando muita repercussão nas redes devido a um debate ocorrido entre Pitty e Anitta sobre feminilidade e liberdade sexual. Enquanto Anitta dizia que as mulheres de hoje provocam os homens a pensar mal delas, Pitty defendia o direito das mulheres de se comportarem como bem quiserem. “Nós ainda não temos os mesmos direitos”, disse a roqueira. Rapidamente se espalharam pelas redes mensagens de apoio à P10420285_799332520128189_2674914528518915486_nitty e de críticas à Anitta.

Em twitter, Pitty rebateu a tentativa da mídia de fazer dessa discussão um factoide, uma discussão que reforça a rivalidade entre as mulheres. “Sinto decepcionar os urubus, mas não estou aqui para brigar com as mulheres, mas com o sistema que fazem as mulheres reproduzirem o machismo”.

Mas a opinião equivocada de Anitta infelizmente não é rara entre as mulheres. São muitos mecanismos culturais e institucionais que nos educam a reproduzir a lógica machista de que somos as culpadas pela opressão que sofremos. Nas escolas, nas famílias, nas novelas, quem nunca ouviu que devemos pensar na roupa que usamos antes de sair, nos modos, na bebida e no jeito que sorrimos para não dar motivo pra sermos abusadas?

10685293_919143994777547_126993736_nEsta polêmica aparece em meio à divulgação do resultado da pesquisa realizada pelo Instituto Avon sobre o machismo no Brasil, que também gerou muita repercussão. Os dados são tristes, mas não surpreende: 3 em cada 4 jovens já foram agredidas por parceiros; 48% acham errado a mulher sair sem o namorado, . Eles atestam aquilo que as mulheres brasileiras sentem todos os dias: a sociedade brasileira grita que nosso corpo não nos pertence. Ainda temos muito a fazer para garantir o direito sobre nosso corpo e nossa sexualidade. Essa pesquisa da Avon também reforça outros dados revelados nos últimos tempos: 96% já sofreram assédio sexual nas ruas (Pesquisa Chega de Fiu-Fiu, 2013); a cada dois minutos uma mulher é violentada; 52% revelam já ter sofrido assédio sexual no trabalho e 50% nos transportes públicos. A cultura do estupro nos rodeia e nos oprime em diversas medidas.

Mas há um expressivo crescimento do feminismo entre as mulheres mais jovens. O fenômeno da Marcha das Vadias, o florescimento de páginas feministas no facebook, o surgimento de ícones do mundo pop como símbolos do feminismo são alguns exemplos. Pitty é um desses símbolos. Não são novas suas declarações de cunho feminista. Houve outro episódio que envolveu Pitty e Anitta em junho desse ano. Pitty escreveu uma carta a respeito de algumas de suas fãs terem lhe avisado que Anitta andava cantando suas músicas em seus shows. Pitty achou muito legal que alguém tão distante de seu estilo curtisse fazer novas versões de suas músicas. Porém, as reações e comentários de algumas pessoas começaram a preocupar. Ela escreveu:

 “Geralmente meninas, e novas, com um discurso de “credo, essa menina cantando sua música, ela fica aí mostrando o corpo, sendo vulgar” etc, etc. Coisas desse tipo. Percebi que o que incomodava não era necessariamente o estilo, ninguém falava sobre mérito musical, cantou bem ou cantou mal, mas sim MOSTROU O CORPO. O que me deixou aflita e o que eu queria dizer para aquelas meninas que mandaram as mensagens é: NOSSO CORPO É NOSSO. Não deixe ninguém te dizer o contrário. Desfrute dele, assuma-o com a forma e tamanho que ele tiver, vivencie seu corpo- assumindo a responsabilidade que isso traz. Esse empoderamento é importante pra todas nós. Nós podemos usar a roupa que quisermos, podemos dizer o que quisermos, podemos ficar com quem quisermos, a hora que quisermos. Somos donas do nosso destino e estamos aqui para sermos felizes e nos sentirmos bem. O resto, meus amores, é só opressão.”

Além de Pitty, Beyoncé, Valeska Popozuda, Daniela Mercury, Tulipa Ruiz, Leandra Leal, Letícia Sabatella e uma série de outras famosas dão declarações e protagonizam episódios que encorajam e respaldam milhares de10811370_919143731444240_17269453_n jovens que estão descobrindo o feminismo e desenvolvendo a consciência de que são donas de seus corpos. Os posicionamentos dessas celebridades são importantes para que o feminismo ganhe espaço e dispute opiniões na cultura de massas. As celebridades que apareceram estampando a campanha da Revista Tpm “Precisamos falar sobre o aborto”, por exemplo, estão cumprindo um papel muito importante para que a sociedade avance no debate sobre a necessidade da legalização do aborto, uma das pautas mais centrais para a realidade das brasileiras, já que uma morre a cada dois dias em decorrência de abortos mal sucedidos.

É importante que essas iniciativas das famosas possam contribuir para que as mulheres avancem na compreensão de que precisam se organizar, para que a reivindicação do feminismo no campo das escolhas pessoais e comportamentais também se expresse na reivindicação de direitos, criação de leis, políticas públicas, medidas que concretizem avanços políticos e institucionais, para que cada vez menos mulheres sofram com a violência machista. É fundamental que os coletivos feministas saibam dialogar com essa realidade e tomem iniciativas para que a luta pelos direitos das mulheres cresça. É fundamental também que na agenda dos movimentos sociais e nas iniciativas de mobilizações por mais direitos estejam colocadas as pautas em defesa dos direitos das mulheres, sabendo dialogar com essas formas amplas de afirmação do feminismo entre as jovens.