Negras e Negros: Se nós também não podemos respirar, só nos resta a luta!

22/dez/2014, 21h49

Cassiano Figueiredo

“I can’t breathe” (Eu não consigo respirar) – foi o que disse repetidamente Eric Gardner, homem negro dos EUA, enquanto um agente da polícia norte americana o estrangulava. Essas foram suas últimas palavras, e virou o grito de revolta das pretas e dos pretos dos EUA que lutam contra o racismo e por justiça.

“Por quê o senhor atirou em mim?” – Essa emblemática frase foi construída também com as últimas palavras de Douglas Rodrigues, jovem negro de 17 anos, covardemente executado pela polícia militar paulista em outubro de 2013.

Infelizmente essas duas frases não significam casos isolados, não. Elas refletem muito da realidade do povo preto, do povo da periferia, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer parte do mundo onde nosso povo está submetido a uma realidade branca, heteronormativa e masculina.

Nós não podemos respirar porque nos roubaram de nossa terra, nos forçaram a trabalhar para engordar uns e outros e esse passado é negado constantemente. Ou então, não podemos respirar porque, coincidentemente após os séculos de escravidão, os negros e negras ainda ocupam os piores postos da sociedade que prega o mito da meritocracia, embora sejamos o povo que mais labutou e que mais trabalha ainda hoje. Também não podemos respirar quando as abordagens policiais são diferenciadas conosco, quando tomamos chutes nas pernas ou tapa no rosto durante uma abordagem, e isso já considerado procedimento padrão. Não podemos respirar quando as portas das universidades estão fechadas para nós, e o pior: quando conseguimos romper a barreira racista das universidades, somos massacrados dentro dela, vide o recente caso de racismo da medicina da USP.

E na verdade nós sabemos porque atiraram no Douglas, porque atiraram em muitos de nós e porque um jovem negro tem três vezes mais chances de morrer violentamente. Sabemos sim. Isso acontece porque, para esses Estados racistas, somos criminosos terríveis, todos nós. Cometemos o terrível crime de nascer com a pele preta na periferia. Seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, nascemos em lugares onde os esforços sempre foram para branquear as coisas.

Aqui no Brasil, por exemplo, há um mito de que a ditadura militar acabou. Pode ter acabado pra uns setores da sociedade, mas aqui na periferia ainda tem policial matando, torturando além dos limites da lei e da razão, por puro sadismo institucional. Ainda tem gente que some. Ainda existe – por mais absurdo que seja – autos de resistência, que é a licença criada durante o período militar para que os policiais pudessem eliminar os inimigos da ordem. Hoje os inimigos das ordem e da paisagem moldada para o homem branco burguês somos nós: pretas e pretos da periferia.

E é uma grande concordância de que não podemos respirar e de que eles nos matam porque somos jovens negros de periferia. A questão é: o que fazer e como fazer?

A velha máxima de que “só a luta muda a vida” enquadra-se perfeitamente na nossa realidade e na nossa reflexão. Só com luta poderemos respirar e conseguiremos o direito de viver com igualdade, e não apenas de sobreviver.

É papel da juventude organizada, do movimento estudantil, da esquerda e dos coletivos organizarem-se e construírem espaços ombro a ombro com negras e negros na luta contra todo tipo de racismo naturalizado. Também é papel da juventude negra trabalhar de modo fraterno com os demais coletivos de negras e negros e com todos os coletivos que tenham interesse em lutar contra o racismo.

E essas articulações devem pautar coisas concretas, como a descriminalização das drogas e o fim da guerra às drogas, que é um nome dado à guerra contra os pobres. Devemos pautar o fim dos autos de resistência, a desmilitarização, e tudo relacionado ao genocídio da juventude negra. E devemos lutar pela preservação e pedaços perdidos da história do povo preto no Brasil. Conhecer nossa história é fundamental.

E o Coletivo Juntos, através da setorial de Negras e Negros vem pautando todas essas lutas e outras mais. E continuaremos tocado a luta até que os pretos e as pretas estejam em condição de igualdade de classe social, raça, de gênero e igualdade para escolher a quem amar.

Cassiano Figueiredo é militante do Juntos Negras e Negros