A mídia e a jornada de lutas contra o aumento

19/jan/2015, 16h27

*Por Matheus Trevisan

Diante da TV, a família brasileira assiste ao noticiário noturno após um longo e estressante dia de trabalho. Na tela, nenhuma grande novidade. Escândalo de corrupção, situação ruim na economia, a pré-temporada no futebol e um protesto. É dessa forma, tirando a mobilização popular do centro das atenções midiáticas, que a imprensa brasileira se esforça para não cometer os mesmos erros de junho de 2013. Naquela ocasião, diante dos milhares que tomavam as ruas de maneira estrondosa não apenas contra a tarifa, mas também contra os políticos e a política em si, os grandes veículos de comunicação agiram como linha de frente dos interesses da elite. Criminalizaram o povo em movimento. Vândalos, baderneiros, desordeiros. Nos editoriais dos jornais, a convocatória para que a polícia fosse dura e retomasse o espaço público que, assustadoramente, estava repleto de povo. Perderam. Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Datena e todas as expressões da elite midiática brasileira foram derrotadas de maneira acachapante e se viram obrigadas a recuar. As pessoas, afinal, estavam protestando legitimamente. É direito do cidadão sair às ruas. Foi uma lição e tanto.

Nesse inicio de 2015, quente como a cabeça do trabalhador e seco de toda paciência que ainda restava, surgem novos protestos com potencial altamente explosivo. É verdade que o aumento das tarifas esse ano veio durante as férias e junto com um passe escolar a duras penas conquistado. No entanto, o cálculo desmobilizador de Alckmin e Haddad não levou em consideração o caos urbano que a população de São Paulo vive. Falta água nas torneiras e quase todos os dias centenas de milhares de pessoas ficam sem luz. A rua é a única saída. A grande mídia, escaldada e cuidadosa, é cheia de dedos para falar de todos os problemas. Falta de água? Culpa de São Pedro e do vizinho que lava a calçada. Falta de luz? Culpa da Eletropaulo. E assim, tentando limpar a barra dos verdadeiros culpados, se equilibra na corda bamba. Aos grandes jornais não interessa noticiar a mobilização contra o aumento das passagens. Não querem novas derrotas, muito menos uma situação de ainda mais instabilidade. É evidente, a imprensa é o mais importante partido da elite brasileira e tem uma relação umbilical com os donos do poder.

Para se contrapor a isso é que toda uma rede alternativa de informações se formou no passado recente. Cobertura dos protestos em tempo real, fotos da repressão policial e vídeos denunciando as arbitrariedades cometidas contra os manifestantes são elementos de defesa da mobilização popular e de ataque à maquina desmobilizadora e anti-povo dos governos. Cabe ressaltar, no entanto, que os protestos de 2015 não estão contando com o apoio e a dedicação devidamente merecida de setores que assumiram a vanguarda e a referência da mídia livre brasileira. Assim como parte da juventude do PT (de Haddad, de Kassab e de Kátia Abreu), a Mídia Ninja está pouquíssimo presente nas manifestações. Uma ou outra foto, uma ou outra notícia. Nada comparado ao destacado papel que cumpriu em junho de 2013. Fica o exemplo de como os mil tentáculos do projeto governista abraçam até quem parecia estar de lado oposto na trincheira.

Há um vácuo de produção de conteúdo e mídia alternativa que deve ser ocupado pela juventude que está saindo às ruas contra a tarifa. Não virão do governismo as melhores imagens tampouco as produções mais realistas sobre a luta popular que pretende colocar Alckmin e Haddad contra a parede. É preciso que cada manifestante seja um irradiador de conteúdos e informações. Só assim será possível furar o bloqueio da mídia tradicional, a velha e carcomida senhora que todas as noites entra nas casas para criminalizar os “desordeiros”. Só assim também será possível furar o bloqueio da nova mídia chapa branca, aquela descolada e aparentemente rebelde, mas que teve sua independência cooptada pelo amor e pelos editais daqueles que descem o sarrafo na população.

*Matheus Trevisan é da Equipe de Comunicação do Juntos!

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