O morto já tava conformado

18/jan/2015, 22h24

*Por Marina Oliveira

Marco Archer foi condenado à morte por tráfico de drogas. Fuzilado em 17/01, o brasileiro que em 2004 foi pego com 13 quilos de cocaína no raio x do aeroporto recebeu visita de familiares, se despediu e, dizem que já conformado, foi receber os tiros.

A barbárie da punição assustou alguns e alegrou outros. Os contrários a pena capital se horrorizaram, entristeceram. Pela vida de Marco Archer pediram muitos: Dilma, Lula, cônsul. Ninguém ouviu. Os que torciam pela sua cabeça na estaca, medievais e brutos, se sentiram vitoriosos na tarde de sábado – morreu Marcos, mais um fuzilado pelas drogas. O instrutor de voo é hoje é notícia nacional: o primeiro brasileiro morto pela pena de morte em país estrangeiro. Claro que só é notícia porque morreu em país estrangeiro. Os traficantes que a polícia nacional mata com fuzil não entram na conta, são rotina. É de fato chocante quando os outros condenam os nossos. Somos patriotas e a mãe gentil do hino nacional é quem deverá matar os próprios filhos.

Como é interessante e limpo o fuzilamento. É feito da seguinte forma: juntam-se soldados, lhes dão armas e na sua frente colocam o condenado. Todos atiram e, assim, ninguém sabe quem matou. Pra mim mataram todos juntos, mas se o que importa é a bala fatal nenhum é culpado – não se sabe quem a proferiu. O Brasil adota o mesmo modelo de pena de morte. Engraçado apontar isso. O Brasil possui pena de morte por fuzilamento em tempos de guerra. Nossa barbárie é restrita a tempos bárbaros. Mas não seriam os tempos de hoje mais bárbaros que a guerra?10893538_10152999770680549_296370268_n

Se refletirmos estamos sim em guerra, na guerra contra as drogas. O objetivo da guerra é evidente: impedir o acesso à droga. Falhamos miseravelmente. Nada é tão de fácil acesso quanto a droga. Os meios usados são dos mais ultrajantes: armamos (uso o nós porque eu e você juntos participamos disso) policiais mal treinados para subir os morros, aterrorizar a periferia e gritar às mulheres e às crianças “ONDE ESTÁ O DONO DA BOCA?” Essa técnica é, na cabeça alucinada de um policial com medo de morrer, a forma mais segura de achar o líder do tráfico. Nada impõe mais medo à mulher e à criança que os berros (da boca e da cintura) do homem fardado, que já revirou a casa toda atrás dos produtos ilícitos. Cabe então aos abordados decidir se tem mais medo do traficante ou da polícia. Eu teria mais medo da polícia.

E por ai vamos. Filmamos Tropa de Elite (um e dois!) para conhecermos a realidade da favela, a realidade da droga e a vida do bandido. Assisti os dois filmes e achei a polícia mais cruel que o dono da boca. Wagner Moura (coitado!) achou que estava atuando fazendo um vilão. Virou mocinho, herói nacional que acaba com o tráfico. Virou a Indonésia brasileira, a pena de morte ignorada e – por debaixo dos panos – autorizada e aplaudida. Vamos por fim à hipocrisia: matamos muito mais que a Indonésia, com muito mais covardia e sem julgamento. O fuzilamento brasileiro não é conjunto, é individual e coletivo: de um só porque cada um mata de uma vez; de todos porque é conduta geral. A guerra no Brasil e no mundo está instituída, já legalizamos a pena de morte nas ruas. Agora vamos todos nos horrorizar com a pena capital escancarada.

Já cantou Elis Regina:

Por engano, vingança ou cortesia

Tava lá morto e posto, um desregrado

Onze tiros fizeram a avaria

E o morto já tava conformado

Onze tiros e não sei porque tantos

Esses tempos não tão pra ninharia

Não fosse a vez daquele um outro ia

Deus o livre morresse assassinado

Pro seu santo não era um qualquer um

Três dias num terreno abandonado

Ostentando onze fitas de Ogum

Quantas vezes se leu só nesta semana

Essa história contada assim por cima

A verdade não rima

A verdade não rima

A verdade não rima…

O morto já tava conformado

*Marina é estudante de Direito da Escola Superior Dom Helder Camara, Belo Horizonte/MG.

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