Um debate sério com Frederico Haddad

09/jan/2015, 09h13

*Cindy Ishida

A luta contra os aumentos de tarifa foi o estopim das Jornadas de Junho de 2013, a queda em cascata dos aumentos pelo Brasil engrossou as marchas que levavam mais e mais pessoas para a rua, aumentando o número de reivindicações, com a certeza que a luta podia trazer vitórias. O anúncio do aumento da tarifa no início desse ano pela Prefeitura de São Paulo indignou a esmagadora maioria da população, mas ao mesmo tempo confundiu alguns jovens e adultos: se o aumento de 50 centavos era seguido de uma proposta de Passe Livre estudantil (umas das reivindicações na rua em 2013) não seria positivo o aumento, já que, entre outras coisas, esse garantiria a gratuidade dos estudantes?

O texto que Frederico Haddad publicou em sua página do facebook, que tem sido chamado pelos seus defensores mais eufóricos de “uma aula sobre a tarifa”, é na verdade uma coletânea de manobras técnicas e retóricas para blindar a Prefeitura de críticas e fazer parecer que a concessão do “Passe Livre Estudantil” foi uma benesse da Prefeitura e não uma conquista arrancada com muito custo pelos que foram às ruas no ano passado. Dando a entender ao longo de toda a argumentação que o método de resolução da crise nos transportes, proposta pelos manifestantes, com congelamento e diminuição progressiva da tarifa, era irracional, Frederico tenta tornar a conquista da queda do aumento em 2013 em um êxito secundário, insinuando que foi a Prefeitura e não os manifestantes que chegou a “uma solução profunda do transporte urbano” após os protestos.

Um desdobramento elementar da discussão de transporte como direito para acessar a cidade é o Passe Livre, uma bandeira importantíssima dos que, como nós, desde 2013, lutávamos por bem mais do que 20 centavos. Por isso, é uma conquista arrancada com a luta. Ao mesmo tempo, sempre pautamos um Passe Livre de verdade: irrestrito em número de viagens, idade e condição socioeconômica. O atual modelo proposto pela Prefeitura de São Paulo sequer de Passe Livre Estudantil merece ser chamado, já que ele garante apenas a gratuidade nas viagens do estudante de casa pra escola. Essa gratuidade, que sem dúvida é importante, mais se assemelha a um “passe escolar gratuito”, dando a entender que os jovens devem ter o direito de se locomover pela cidade apenas para poder estudar, e não para desfrutá-la em seus vários aspectos de vivência, lazer e cultura. Além disso, ao restringir o benefício apenas a estudantes, Haddad deixa de lado os trabalhadores que não possuem Vale Transporte (sobretudo, os informais) ou o Bilhete Mensal – este, cantado pelo filho de Haddad como remédio pra todos os males, mesmo tendo seu grande insucesso no fato de as pessoas simplesmente não conseguirem pagar toda a tarifa mensal de uma vez. O resultado é claro e escandaloso: ao contrário do que disse a prefeitura e seus aliados inicialmente, ainda nos últimos dias de 2014, não será uma minoria da população que pagará a estratosférica tarifa de R$3,50 a partir desta semana: seguramente, mais de 50% da população terá de lidar com este aumento (sendo esta porcentagem ainda maior agora, no período de férias, quando o estudantado ainda não tem seu passe escolar gratuito validado)

O texto de Frederico também cita repetidas vezes a auditoria feita pela Prefeitura para abrir as contas dos contratos com empresas de transportes. Entretanto, impressionantemente, Frederico acredita ser mais absurdo mexer nos gastos dos lucros das empresas de transporte do que os salários dos cobradores, que devem ser absurdamente demitidos por Haddad. E isso mesmo com os dados da auditoria (ao menos os publicados pela imprensa) mostrando que os lucros acumulam cifras muito superiores aos salários desses funcionários, que seriam eliminados com a generalização dos cartões. Frederico acredita que os salários dos motoristas e cobradores são onerosos, mas parece se esquecer de mencionar que TODAS as empresas que prestam serviços hoje na capital foram classificadas como ruins ou péssimas, mas seguem mantendo, graças à Prefeitura e ao aumento da tarifa, lucros exorbitantes.

Aumentar a tarifa não é bom nem em abstrato nem no concreto. Estabelecer um debate sério e “profundo”, como o filho do Prefeito conclama aos jovens que protestam contra a tarifa, é debater as relações mantidas entre Prefeitura e empresários dos transportes, aparentemente grandes parceiros. É questionar porque um Prefeito que se diz modernizador não pode utilizar o dinheiro do aumento da arrecadação de impostos em São Paulo, e da renegociação da dívida da cidade, para congelar e até mesmo reduzir a tarifa do transporte. É questionar a máfia dos transportes, que segue lucrando e impondo sua política dentro da Prefeitura, enquanto oferece um serviço caro e de péssima qualidade para o povo. É questionar, por fim, por que novamente Haddad prefere eleger como seu grande parceiro o governador truculento e autoritário Geraldo Alckmin, do PSDB, orquestrando em conjunto com ele medidas contra o povo, ao invés de ouvir a população de São Paulo e aqueles que se mobilizaram às centenas de milhares em 2013. Infelizmente, nem Haddad nem o seu filho entenderam nada sobre junho de 2013. Enfiado nas suas planilhas (às quais, aparentemente, o filho do Prefeito tem acesso antes do conjunto da população) e nos compromissos podres que mantém com o empresariado, seguem de costas viradas para a juventude e para o povo.

Hoje 9, 17h, em frente ao Teatro Municipal, a luta segue. Nenhum aumento e nenhuma demissão! Ainda veremos o que tem de Junho de 2013 em Janeiro de 2015.

 *Cindy Ishida é membro do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017