Em defesa da comunidade LGBT, contra a demagogia governista!

10/fev/2015, 23h40

Após 76 anos da fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e muita pressão política da Oposição de Esquerda, foi realizado na última semana o primeiro encontro LGBT da história da UNE. O encontro ocorreu na 9ª Bienal da entidade, no Rio de Janeiro. Temos certeza da importância do debate, no entanto, esse foi apenas um primeiro passo na discussão por mais direitos LGBTs nas Universidades e no Brasil.

Participamos do seminário para contribuir com o debate e também para denunciar o que o governo (não) vem fazendo pela pauta LGBT. Não nos iludimos com um governo como o atual, permeado por alianças fisiológicas, que coloca Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara e baixa a cabeça para o machismo de Bolsonaro. O governo federal faz tantos acordos sob a desculpa de obter governabilidade que tornou-se refém de suas próprias relações espúrias. Com tanta concessão, não é possível avançar. Portanto, para o governo Dilma, a pauta LGBT nunca será prioridade.

Na UNE não é diferente. A entidade que ajudou a derrubar a ditadura numa luta por democracia é hoje uma das entidades mais antidemocráticas do país. Ela anda na contramão de nossas lutas! Em diversas atividades, inclusive no seminário LGBT, houve uma ampla resistência da direção majoritária da UNE (UJS/PCdoB) para compor as mesas também com nomes da Oposição de Esquerda, como deveria ser em um debate democrático. Após muito esforço, conseguimos garantir a presença da companheira Sara Azevedo, lésbica e professora da rede estadual de Minas Gerais, que fez uma excelente fala demonstrando que só avançaremos com unidade com os setores oprimidos da sociedade e sem concessões para fundamentalistas.

Tentaram nos calar: não queriam que colocássemos em contradição o projeto falido de movimento estudantil que defendem por todo o país. Não queriam que denunciássemos que, por trás de um discurso bonito em defesa dos direitos LGBTs, estão seus acordos com Feliciano e Bolsonaro. Mas nós estávamos lá, mostrando com nossa força e nossa voz a contradição deles: Bolsonaro é da base aliada e Dilma governa com a Igreja Universal.

Se antes o governo não pautava o debate LGBT devido às suas alianças, agora a situação é mais crítica. Com a política de ajuste em diversas áreas sociais, como os direitos trabalhistas e a educação, e a nomeação de um ministério muito conservador, o governo se mostra ainda menos disposto a garantir mais direitos e aprovar políticas públicas para a comunidade LGBT, e o seminário ajudou a evidenciar isso, com poucas propostas concretas por parte daqueles o defendem.

O projeto do governo já dá sinais de esgotamento. E, se não avança, retrocede. Por isso, a afirmação de uma alternativa de esquerda passará pelo enfrentamento tanto à direita tradicional e conservadora, como àqueles que apresentam uma maquiagem de esquerda para o conteúdo neoliberal concreto de suas ações. Portanto, temos consciência que num governo como atual, permeado por alianças que rifam nossos direitos e que está junto com “Bolsonaros e Felicianos”, a pauta LGBT nunca avançará.

Nos últimos anos, dois acontecimentos foram responsáveis por uma maior politização e mobilização em torno do debate sobre questões de gênero e diversidade sexual. O primeiro foi as Jornadas de Junho, que cumpriram um papel fundamental para a auto-organização dos mais diversos movimentos sociais e para a consolidação de um novo método de se fazer política. As pessoas perceberam seu protagonismo para a construção de uma sociedade mais igualitária e solidária.

Outro recente processo que teve as demandas do movimento LGBT como uma das discussões centrais foram as eleições presidenciais de 2014. Luciana Genro, candidata a presidente pelo PSOL apoiada pelo Juntos!, teve coragem de levar a questão das opressões sofridas por LGBTs pela primeira vez em um debate de presidenciáveis na televisão. A campanha de Luciana Genro conseguiu trazer mais politização para o movimento, que volta a se unir no Brasil. Temos hoje, portanto, o desafio de dar continuidade à luta LGBT nas nossas cidades, nas nossas escolas e universidades, trazendo a unidade daqueles que não fazem alianças simplesmente para estar no poder.

Luciana foi a única presidenciável que repudiou o discurso homofóbico de Levy Fidelix (PRTB) – que chocou o Brasil. Foi ela que também questionou a responsabilidade da bancada fundamentalista nos assassinatos de homossexuais e pessoas trans, em pergunta ao Pastor Everaldo (PSC). Ele negou, mas o recado foi dado ao vivo. Em seu último discurso, disse que a bandeira LGBT é uma das mais importantes para uma civilização realmente digna no país e, de “nanica”, Luciana Genro passou a uma gigante no combate ao preconceito.

Temos hoje o desafio de dar continuidade à luta LGBT nas nossas cidades, nas nossas escolas e universidades, incentivando a mobilização de todas e todos que querem lutar e trazendo a unidade daqueles que não fazem alianças simplesmente para estar no poder. A luta LGBT não pode ser desvinculada da luta contra os ajustes e, em hipótese alguma, pode estar abaixo de acordos para chegar ao poder. O aumento das tarifas e os cortes de verbas afetam diretamente a comunidade LGBT e mostram que o governo já escolheu um lado, que não é o lado do povo. A extinção de secretarias LGBTs em alguns estados é só mais um exemplo de como os ajustes nos afetam e impossibilitam o governo de avançar nessa questão, mesmo que promessas vazias sejam feitas.

Lutamos todos os dias contra uma sociedade que está intrinsecamente inserida em um sistema capitalista, e, portanto, individualista, que oprime o corpo e as relações de amor e de existência. Por isso, não nos deixamos enganar quando a UNE fala em unidade na defesa dos LGBTs, fingindo desconhecer que faz parte de um projeto político opressor a essa população. Por isso, nos sentimos humilhados quando Dilma zomba de nós fazendo um adesivo com as cores do movimento LGBT. Não faremos unidade com quem se alia aos setores mais reacionários e conservadores e, por que não dizer, fascistas da sociedade. A nossa resposta é clara e objetiva: a unidade só se conquista sem aliança com fundamentalista!

Seguimos nas ruas e nas universidades do país com nossas camisetas amarelas convidando a todos a fazer parte dessa luta contra o burocratismo da UNE. Vem com a gente pintar os campi das universidades, as escolas, as cidades e os estados de todas as cores! Reafirmamos aqui nosso compromisso em defesa dos direitos das pessoas LGBTs e, como destacado no quarto ponto da nossa tese pós-Bienal “Construir o ‘Junho da Educação’ nas Universidades”, seguimos na luta por  “Mais direitos nas universidades! Combate ao machismo, racismo, LGBTfobia! Conectar a luta pela educação com a luta por todos os direitos sociais”!

 

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