Fotógrafos de bloco — a Zona Sul esclarecida cria uma Globo particular

14/fev/2015, 15h16

Thadeu Santos

Fotógrafos que vêm ganhando fama por cobrir o Carnaval dos blocos do Rio que desfilam pela Zona Sul estão a carga de uma reviravolta nas folhas das colunas sociais. A sucessão de imagens esplendorosamente captadas, o compartilhamento nas redes sociais e a assinatura taggeada formam um novo dispositivo de informação que, nos nossos tempos, disputam o espaço midiático que outrora estava exclusivamente reservado às colunas sociais dos grandes jornais; aquelas que metodicamente detinham o status do quem acontece, não por acaso, a alcunha de uma das revistas que se apropriam da prática para disseminar sua mediocridade. Parafraseando Gilberto Gil, se há de um lado “esse Carnaval” e do outro “a fome total”, fica a questão: por que nossa juventude questionadora embarca, justamente na Festa dos Avessos, na egotrip da bajulação?

Um antigo companheiro de copo dizia que ter o Projac como quintal causa consequências irreparáveis — e seus tentáculos asfixiam os foliões mais chegados na esculhambação, pois este sabe que, no conjunto dos adereços que comporão a folia, perderá espaço na memória coletiva para alguma divindade africana à la contos de fada. É claro que este comportamento está longe de ser exclusivo da Festa do Momo, vale lembrar dos maratonistas e suas faixas para chamar atenção da tv, dos torcedores no Maracanã e a “criatividade típica do brasileiro”, um conceito mal explicado provavelmente inventado pelo Luís Roberto. Não é à toa que comentaristas de futebol sejam escalados para apresentar o Carnaval da Sapucaí, pois parecem já acostumados com o tipo de transmissão que se apoia no povo para catapultar a Ambev. Não é preciso se alongar nestes exemplos do mainstream, a questão suscitada é um frente a frente com um espelho real que forma identidades, com a construção da nossa mídia. Aí está o caroço da azeitona. Se é facilmente detectável uma infestação da grande mídia no comportamento social, é de embasbacar que a juventude apoderada desta geração reproduza discurso similar nas mídias particulares, justamente aquela juventude que, de posse do melhor senso crítico possível e das técnicas de disseminação de imagens, não consegue quebrar o estigma do quintal.

Não precisamos aqui militar por um discurso que seja uma receita de bolo, pois isso não existe. Porém não podemos passar pela dimensão do ocorrido como quem pede uma média na padaria da esquina. A celebridade é uma construção estética. Jogar merda na cara dela é autoproclamar a alforria. A provocação vem no sentido da cidade total, aquela cidade que toma a rua Jardim Botânico e aquela cidade que toma o vão do Balança Mas Não Cai, ambas em pleno exercício do que lhe pertence; veja que a imagem mais potente produzida no pré-Carnaval é justamente a do Bloco da Preta — o maior programa de tv a céu aberto do mundo —, onde uma Presidente Vargas tomada pela multidão, com a Candelária ao fundo, faz com que enxerguemos no Carnaval de Rua do Rio uma vitória triunfal diante da morbidez dos shopping centers. O exercício do Gilberto Gil precisa ser continuado, podemos apontar as fraquezas de nossa sociedade débil sem nos apartar dela, falemos da “fome total” de cima do trio elétrico, pulando em meio às logos do patrocinador, correndo atrás de uma selfie com o Pedro Luís, suingando no balanço da Orquestra Voadora. Contudo, não sejamos inocentes, o esplendor do brilho dos corpos esconde armadilhas. Cuidado pra purpurina não cegar.

*Thadeu Santos, editor da KZA1