Grécia: rumo ao choque frontal

08/fev/2015, 23h15

Hoje o primeiro-ministro Alexis Tsipras fez um discurso importantíssimo no Parlamento Grego, reafirmando os pontos do programa com o qual foi eleito o governo de Syriza. Esta semana promete ser decisiva em toda a Europa, com a reunião das cúpulas da UE e com mobilizações de rua agendadas. Mais do que nunca será necessária a solidariedade internacional ao governo da esquerda radical.

Confira abaixo a análise do professor de filosofia Política e dirigente de Syriza, Stathis Kouvelakis.

 

Grécia: rumo ao choque frontal

Stathis Kouvelakis

O discurso político de Alexis Tsipras desta noite foi acompanhado com uma atenção particular tanto pelo país quanto pelas chancelarias europeias – e sem dúvida também pelos Estados Unidos. No país, apesar da chantagem feita pelo BCE e das contínuas agressões dos dirigentes europeus, amplia-se uma atmosfera de efervescência, de dignidade recuperada, de vontade tanto de apoiar o governo face à chantagem quanto de fazer pressão para impedir qualquer recuo. No exterior, e mais particularmente nos círculos dirigentes, cada palavra e, sobretudo, cada medida anunciada são pesadas para avaliar a determinação do primeiro-ministro e de seu governo.

Muitos esperavam uma inflexão significativa, anunciando uma retirada, que facilitaria um “compromisso” com as cúpulas europeias nesta semana, o que na realidade seria uma submissão da Grécia aos ditames externos. Eles ficaram certamente decepcionados, uma vez que Alexis Tsipras, na verdade, não fez nenhuma concessão de fundo. Por certo, ele evitou utilizar o termo “anulação da dívida”. Mas em contrapartida, insistiu fortemente no caráter inviável da dívida, reivindicando sua “diminuição” e sua “reestruturação’. Outro ponto: ele não anunciou o restabelecimento imediato do salário-mínimo nacional ao nível de 2009 (751 euros), mas ele se comprometeu a restabelecer ao longo de 2015. De resto, ele apresentou todos os pontos do programa de Tessalônica: medidas de urgência para enfrentar o desastre humanitário (alimentação, restabelecimento da corrente elétrica, transporte e cobertura médica para todos), re-implementação da legislação trabalhista, supressão das taxas injustas sobre a terra, reforma fiscal para fazer com que os ricos paguem tributos, aumento do limite de isenção de impostos para 12 mil euros, reintegração dos funcionários públicos demitidos, fim dos privilégios concedidos às mídias privadas, reconstituição da ERT (rádio-televisão pública), ativação de parte dos bancos controlados pelo Estado, fim dos leilões de entrega do patrimônio público (portos, infra-estrutura, energia), fim da repressão policial às mobilizações populares.

Ponto estratégico: Alexis Tsipras reiterou que se recusa a pedir a extensão do “programa de assistência” atual e da tutela da Troika, além de solicitar a prorrogação da liquidez concedida aos bancos gregos, com base no reembolso dos lucros obtidos pelos bancos centrais da Zona do Euro em cima da dívida grega e da ampliação da capacidade de endividamento do governo grego. Ele por fim destacou a necessidade de um orçamento equilibrado no qual se rejeite os superávits primários exorbitantes destinados a reembolsar eternamente a dívida e a reciclar a autoridade da Troika. Mas mesmo esse compromisso de equilíbrio do orçamento parece dificilmente compatível com as medidas sociais anunciadas num contexto de receitas fiscais anêmicas.

A reforma altamente simbólica do código da nacionalidade, por conceder a cidadania a todas as crianças nascidas na Grécia, recebeu um vibrante elogio de Tsipras.  Ele também insistiu longamente no papel do recém-criado ministério da Imigração, no sentido de proteger os direitos humanos e a dignidade das pessoas, ao mesmo tempo em que reclamou uma mudança da política européia na matéria. Prova, se é que ainda era necessária, de que a participação dos Gregos Independentes (ANEL) no governo não modificou em nada a posição de Syriza sobre essas questões.

Na realidade, o núcleo duro dos Memorandos foi varrido. A ruptura está bem aqui. E Alexis Tsipras foi enfático nesta questão de muitas maneiras. Em primeiro lugar, ele se referiu explicitamente ao papel da mobilização na Grécia e da solidariedade internacional, a qual saudou de maneira incisiva, na batalha que espera o governo. E ele foi de uma grande firmeza no fato de que a restauração da soberania nacional, a democracia e a dignidade do povo grego não são negociáveis. No contexto atual isso equivale a um apelo para que o povo saia às ruas na Grécia e na Europa, e não tenho dúvidas de que ele foi entendido.

Além disso, no fim de seu discurso depois de uma longa homenagem à longa história de lutas do povo grego, ele retomou o tema das indenizações de guerra da Alemanha e colocou Manolis Glezos à frente do processo que será conduzido pelo governo. Agora sabemos que este assunto é uma verdadeira “bandeira vermelha” para os dirigentes alemães.

Globalmente, podemos dizer que Alexis Tsipras enviou uma mensagem de firmeza e de combatividade tanto para o interior quanto para o exterior do país. Ele negou as expectativas daqueles que já estão apostando em uma inclinação para concessões que conduzam a uma capitulação. Parece totalmente excluída a possibilidade dos dirigentes europeus tolerarem de alguma forma a política que foi apresentada hoje perante o parlamento grego.

Estamos, portanto, bem diante de um cenário de confrontação, que terá um giro decisivo no curso desta semana, com a conjunção da reunião das cúpulas europeias e das mobilizações de rua. Estamos, sem dúvida, na véspera de grandes eventos, que podem alterar o curso atual dos acontecimentos na Grécia e na Europa.

Na combinação da firmeza da direção grega, da mobilização do povo e da solidariedade internacional reside a “equação mágica” de uma possível vitória!

Stathis Kouvélakis  é professor de filosofia política e membro do Comitê Central do Syriza 

 

Fonte: Facebook

Tradução do francês para o português: Charles Rosa

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