ITU: Água para a vida, não para o lucro

25/fev/2015, 13h19

Monica Seixas, Luís Montanari e Pedro Scavacini

Dia 22 de setembro de 2014. Um grupo de aproximadamente 2.500 pessoas, a maioria mulheres acima dos 40 anos, donas de casa, juntas em frente ao prédio da Câmara de vereadores de Itu, no ato que ficou conhecido pela maior depredação de patrimônio público da história do município.  Uma conjuntura difícil de imaginar em qualquer outro local e situação, quando menos em uma pequena cidade do interior de São Paulo em que os moradores têm uma relação emocional com sua arquitetura histórica. Mas o que levou donas de casas a pegarem em ovos, paus e pedras?

Uma extrema escassez de água.

No ano passado, a cidade entrou em colapso com a falta total de água. Todos os reservatórios chegaram à zero. A crise que se iniciou em setembro de 2013 modificou drasticamente a rotina dos Ituanos. Foram longos meses recebendo água com baixíssima pressão (o que faz com que ela não suba nas caixas d’água) apenas a cada 72 horas ou mais. Até que os reservatórios chegaram realmente ao fim em agosto de 2014.

A merenda das escolas foram cortadas porque não havia água para lavar a louça. Por vezes, os alunos foram dispensados porque os banheiros estavam inutilizáveis. Sobrados e casas dos bairros mais altos ou distantes das estações de tratamento chegaram a ficar 3 meses sem receber uma gota de água. Comércios fechando. A roupa empilhando, a louça acabando. Às vezes a gente não conseguia tomar banho, às vezes, o jeito era comprar água mineral para realizar os serviços domésticos. Alguns serviços dos postos de saúde, como a vacinação, por exemplo, deixaram de funcionar porque faltava água para manter a higiene. Atendimento só de urgência e emergência.

Por todos os lados, as pessoas transportavam água. Eram carros e mais carros adaptados para abrigar reservatórios, assim, ia-se até as cidades vizinhas, ou em alguma nascente na zona rural trazer a água para a família. Quem não tem carro, transitava com galões e garrafas pets nos transporte público, a pé. Era uma busca e transporte incessante, em toda a parte.

O poder público (prefeitura, governo estadual e federal)? O mais completo silêncio. Ninguém sabia quando e se um dia a situação ia normalizar. E ao contrário de outras 285 cidades brasileiras em que foi decretado estado de calamidade pública no ano passado por falta de água, Itu não fez o mesmo. Não pediu ajuda à União e deixou os seus munícipes ao esmo. O prefeito? Sumiu. Ninguém o viu durante a crise. Nem entrevista a imprensa ele dava. O Alckmin? Ah! O estado mandou a Tropa de Choque para conter a revolta popular, e só!

O motivo do governo de Itu ter se mantido apático diante do sofrimento do povo é conhecido por qualquer munícipe. Nossa gestão do serviço de água e esgoto aqui é 100% concedida à uma empresa privada. Feita pela Águas de Itu, e sem participação da prefeitura e Estado. Numa situação de crise como essa, a União não pode enviar recursos a uma empresa privada. Quebra-se a concessão? Devolve a gestão para o município? Não. Deixa o povo morrer de sede, mas a prefeitura optou por preservar o contrato com a empresa.

Nesse cenário nascem as barricadas de Itu. Contra a falta de água, o povo descobriu o fogo. Durante setembro e outubro, em todos os bairros, quase que diariamente havia intervenções populares. A grande maioria liderada por mulheres, a classe que mais sentiu a falta desse bem pra manutenção da família no dia a dia.

O pedido inicial do decreto de calamidade pública e o fim da concessão se transformaram na urgência da entrega de um pouco de água. E onde havia fogo, a água aparecia. Sempre se encerrava o dia com a chegada de um caminhão pipa e longas filas de moradores para pegar alguns baldes.

Até que novembro chegou com chuva.  No saldo da nossa luta, dezenas de prisões. Alguns casos de torturas de militantes. Marcas de fogo pelo asfalto e nenhuma responsabilidade cobrada da prefeitura, estado e concessionária. O que devolveu timidamente a água na torneira foi apenas o ciclo da natureza.

E 2015 chega com a água secando  não só em Itu, mas no sudeste.Em São Paulo:  Campinas, Ribeirão Preto, Iracemápolis, Araras, Valinhos, Saltinho, Guarulhos, São Paulo, Itu.  São cerca de 30 municípios declaradamente com dificuldade de manter o abastecimento agora no verão, em época de chuvas. Não precisa ser paranormal para prever o que vai acontecer quando chegar a estiagem.

O modus operandi dos diferentes governos têm repetido o exemplo de Itu: “Vamos fingir que a crise não existe.  Vamos mentir sobre sua gravidade e torcer para chover”. Além dos discursos, o que chama a atenção é que as empresas concessionárias, seja a nossa Águas de Itu, a Sabesp a Sanasa  tem apresentado lucro e valorização nos últimos anos.

Como socialistas, não devemos nos privar de pensar a relação da escassez dos recursos hídricos e a exploração da natureza pelo capitalismo. A água é a commodity do presente.

Somente 23 países detêm dois terços das reservas de água potável e 47% dos recursos hídricos estão na América do Sul, sendo que deste total, mais da metade, cerca de 53%, estão no Brasil.

De acordo com a ONU, mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água potável e perto de 2,5 bilhões não dispõem de qualquer tipo de saneamento. Como resultado, 8 milhões de pessoas morrem por ano por causa de doenças relacionadas com a água, das quais 50% são crianças.

Ainda, segundo este mesmo órgão, dentro de 25 anos existirão 4 bilhões de pessoas sem água para satisfazer as suas necessidades básicas. Continuando esta tendência, acredita-se que este líquido deva tornar-se uma mercadoria de elevado valor no mercado internacional nos próximos 40 anos.

A água não pode ser tratada como mercadoria.

Nos perguntam se Itu sabe como enfrentar a crise, se nossa experiência nos apontou soluções.

O que aprendemos é que não há mais tempo para evitar a crise. Ela virá. São Paulo vai virar Itu. Não há mobilização que seja capaz de trazer a água de volta a curto prazo.

Se as previsões desenhadas pelos especialistas se cumprirem, serão pelo menos 6 meses de abastecimento prejudicado, ou colapso, em dezenas de cidades do estado todo.  E isso, vai afetar nossa rotina e nossas atividades econômicas e por tanto, desemprego. A falta de água, vai gerar um aumento não só na tarifa de água, mas nos preços da água engarrafada. Em Itu, a gente chegou a pagar R$12 em um galão de 20 litros de água mineral e R$120 por mil litros de água em caminhões pipas particulares (que na conta de água normal, custa R$4,00).

O que fazer nesse cenário e como dar orientação política para a crise é nosso desafio.

A mobilização deve implantar uma nova cultura da água – com uma gestão transparente e pública, em que a palavra de ordem seja recuperar.  E temos alguns anos de luta pela frente.

Água para a vida e não para o lucro é o lema da união de 73 organizações que, no dia 6 de dezembro assinaram a carta de Itu, em assembleia estadual de movimentos sociais para enfrentar a crise. Vários coletivos do Psol e a Apeosp estão entre elas.

Teremos um 2015 de muita luta a ser engolido à seco, camaradas.

Calendário de Lutas pela água:

25/02 – Roda de debate sobre crescimento urbano e crise da água na ufscar em Sorocaba.

26/02 – Marcha pela água do MTST em Sampa.

27/02 – Workshop sobre soluções pro médio tietê do Juntos de Sorocaba.

28/02 – 2o seminário do fórum popular de saúde, na Escola (crise hídrica) de Enfermagem da USP.

12/03 – Assembleia Regional da Água – Zona Oeste: Organizarmos todos para lutar pela água.https://www.facebook.com/events/1535884823366892/ (EM ABERTO)

21/03 – Assembleia regional de campinas. (EM ABERTO)

22/02 – Assembléia estadual da água em São Paulo. (EM ABERTO)

Monica Seixas, Luís Montanari e Pedro Scavacini fazem parte do movimento Itu vai Parar

Foto: Mídia NINJA

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017