Negros e LGBTs: Nossa Luta é Contra o Sistema!

19/fev/2015, 15h38

Welynton Almeida*

Se na sociedade o racismo lembra diariamente a negras e negros a necessidade de seguir lutando para garantir espaço e direitos – que com convicção tentam nos negar –, no movimento LGBT, muitas vezes reprodutor desse sistema racista, machista e homolesbobitransfóbico, não seria diferente.

Problematizo do meu lugar de fala e de tantos outros: negros, homossexuais e pobres. Combinação mortal para se nascer. Quem nasceu com essas características vive tendo a discriminação como realidade.

Para contextualização, é importante relembrar que a cada 24 horas um LGBT é assassinado no país (apenas nos registros oficiais, excluindo tantas mortes que nunca foram registradas) e que de 2007 a 2012 cresceu em 21% o número de assassinatos da juventude negra, superando números de países em guerra civil.

O racismo é presente e pesa! Por maior que seja, não há armário que esconda nossa cor de pele e classe social. Nas telas das emissoras de televisão, negras e negros têm seus corpos hipersexualizados e vendidos como mercadoria, principalmente em períodos com o do Carnaval. Esse imaginário que vincula imediatamente negros a sexo, herança do tempo em que não éramos donos de nossos corpos, é também sentido fortemente dentro da comunidade LGBT.

Para o negro gay é comum ouvir dentro e fora de casa: “não bastar ser negro, tem que ser viado!” Imagino que para lésbicas, bissexuais e pessoas trans não seja diferente, com os respectivos ajustes. Essa lógica perversa, que trata duas das tantas condições humanas como soma negativa, precisa ser superada – e, para essa superação, é necessário trazer a crítica e a problematização para dentro do movimento LGBT.

Como comunidade que é oprimida e que, em teoria, está mais disposta a sentir empatia por outros oprimidos é, dever nosso, LGBTs, estarmos juntos nessa luta!

Devemos refletir a respeito de muitas questões: O que estamos fazendo para repensar nossos privilégios? O que estamos fazendo para facilitar a saída do negro do lugar de objetificação, onde é sempre viril, sexualmente ativo e com grandes dotes sexuais? Estamos encarando a realidade das negras e negros dentro e fora do movimento LGBT ou ignoramos quando não nos atinge? É urgente que as pautas se unifiquem e que o necessário recorte de classe seja feito. Se queremos um movimento LGBT abolicionista, devemos começar repensando nossas reproduções do sistema.

Por mais representatividade e por menos objetificação das negras e negros!

Nossa luta está interligada! Seguimos mobilizados contra todo e qualquer tipo de preconceito!

Welynton é militante do Juntos! LGBT/RS e Coordenador de Diversidade Sexual e de Gênero do DCE UFRGS – Gestão Podemos 2015.