Oscar 2015: é hora de ter os mesmos salários e os mesmos direitos.

23/fev/2015, 12h39

Sâmia Bomfim

A luta pela igualdade salarial é uma das mais tradicionais no feminismo. Décadas se passaram do início da entrada das mulheres no mercado de trabalho, muitas conquistas trabalhistas, mas ainda ganhamos menos que os homens no mundo todo e não temos os mesmos direitos garantidos. Foi de grande surpresa, no entanto, que na festa de premiação do Oscar, com tantos flashes, celebridades, superproduções, o pedido de igualdade salarial tenha roubado a cena. O vídeo da atriz Patrícia Arquette, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz coadjuvante por seu papel de mãe batalhadora em Boyhood, já é o mais visto e compartilhado do Oscar. Ela aproveitou o momento dos agradecimentos parda dar o recado: “A todas as mulheres que deram à luz, que pagam seus impostos e que são cidadãs desta nação, lutamos pelos direitos de todos os demais. Já é hora de termos de uma vez por todas o mesmo salário (dos homens) e os mesmos direitos para as mulheres dos Estados Unidos da América”.

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Essa não foi a única manifestação feministas da noite de gala. Nomes como Cate Blanchett, Julianne Moore e Emma Stone protagonizaram episódios de contestação da lógica machista que estrutura a indústria cinematográfica. Cate Blanchett questionou a um câmera do canal de entretenimento E! que filmava seu corpo de baixo para cima se ele também fazia isso com homens atores. Uma campanha com o slogan #AskHerMore foi encampada pela comediante Amy Poehler. A ideia é questionar porquê as mulheres, quando entrevistadas, só ouvem perguntas sobre os estilistas que assinam seus vestidos, sua maquiagem, sobre se enfrentam problemas em casa ou se conseguem conciliar suas carreiras com a vida doméstica e pessoal. As atrizes dizem Ask her more, ou pergunte mais a ela, para afirmarem que o tapete vermelho não é cenário para estampar seus lindos corpos e vestidos, mas para receber mulheres talentosas e competentes que, apesar das dificuldades e desigualdades de gênero encaradas e tendo o todo tempo sua forma física questionada ou controlada para conseguirem ter espaço no Cinema, conseguem se destacar profissionalmente.giphy (1)

O mundo do Cinema é repleto de desigualdades. Apenas 30,8% das personagens femininas têm direito à fala, 26,8% aparecem nuas nos filmes e apenas 11% dos filmes tinha um elenco balanceado, com metade composto por mulheres. Este ano, apenas uma das cinco atrizes indicadas neste ano está em um filme também indicado como melhor filme – Felicity Jones, que interpreta a primeira esposa de Stephen Hawking no filme A Teoria de Tudo. Quantas diretoras de cinema você conhece?

O mundo do cinema sem dúvida tem grande responsabilidade na perpetuação dos estereótipos físicos que oprimem e humilham mulheres em busca dos padrões, na reprodução e normatização das desigualdades de papeis e de divisão sexual do trabalho que impera na sociedade. Mas é muito positivo que manifestações feministas tomem conta de eventos tão tradicionais como o Oscar e em demais espaços da indústria do entretenimento, como a música pop, que constrói vários ícones que reivindicam o feminismo. Sinal dos tempos e do momento que vive o feminismo. Nós, dos movimentos sociais, precisamos aprender a dialogar com o incontestável crescimento e amplitude do feminismo e acumular para que cada vez mais mulheres percebam as desigualdades de gênero e se disponham a se organizar para combater o machismo e lutar por mais direitos.

É hora de termos os mesmos salários e direitos.

Confira o vídeo da atriz Patrícia Arquette: https://www.youtube.com/watch?v=L-EmDy3w1X8

*Sâmia Bonfim é formada em letras, funcionária da USP e militante do Juntas!