MALCOLM X: Nossa Liberdade ainda não pode esperar

24/fev/2015, 15h03

Cassiano Figueiredo
Em 21 de fevereiro de 1965, 50 anos atrás, era assassinado um dos grandes nomes do Movimento Negro, Malcolm X.
Marcado por uma infância trágica, em um país que pregava a segregação racial, Malcolm Little (seu nome de registro) encontrava-se frente a um verdadeiro campo de batalha, no qual negros eram espancados e mortos todos os dias. Depois do assassinato de seu pai, ele e seus sete irmãos foram jogados a própria sorte.
Malcolm, sem a mínima estrutura familiar e à margem da sociedade, adentrou ao mundo da criminalidade buscando sobrevivência, tal como ainda ocorre com os jovens negros, especialmente no Brasil. Foi preso por roubo e nos anos em que ficou detido converteu-se ao Islamismo e aderiu ao movimento Nação do Islã, passando a ser chamado de Malcolm X.
O movimento que integrava tinha um método radical trazendo a ideia de superioridade negra, fazendo oposição à tática exclusiva de apenas desobediência civil. Para ele era necessário, mais do que se opor a falta de direitos para os negros, resistir usando da violência para auto defesa, uma vez que os negros eram espancados gratuitamente nas ruas.
Malcolm recusava a integração à sociedade branca e a igualdade racial, por uma questão de auto defesa, o que se torna totalmente compreensível se analisado frente ao terrorismo do racismo e da violência do Estado contra os negros e negras. Ele também, em sua análise, compreendeu que a questão da violência racial encontra suas principais bases no modelo de organização político-econômica capitalista, sendo inerente à luta de resistência do povo negro uma luta também pela construção de independência econômica, saída que Malcolm X encontrava através da construção do socialismo.
O importante a respeito de seu legado, além de toda a referência que a comunidade negra norte americana teve à época, é o modo como seu pensamento de “resistência a qualquer custo” influenciou os movimentos populares de resistência negra nos EUA – e no mundo todo – e que continua vivo dentro do espírito de todos os jovens negros e negras que estiveram recentemente nas ruas, com muito enfrentamento inclusive, após a execução de Michael Brown.
Logo um ano após a morte de Malcolm X, que acalorou ainda mais o debate e fortaleceu a ideia de auto defesa não pacífica, surge então o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa (Black Panthers Party for Self-Defense), que se organizava com inspiração nas organizações de guerrilhas socialistas existentes na América Latina, mas principalmente baseado no legado de Malcolm X, que pregava uma luta anticapitalista, por empoderamento do povo preto, mas principalmente por resistência. A organização revolucionária do Partido dos Pantera Negras esteve na vanguarda da luta por Direitos Civis para os negros norte-americanos, na defesa de comunidades negra pelo resto dos anos 60, toda a década de 70 enfraquecendo-se apenas em 1980, quando encerrou suas atividades.
Mas as grandes lições que tiramos de Malcolm X, do Partido dos Panteras e da juventude negra norte-americana que, ainda hoje, com muito enfrentamento, continuam fazendo a “resistência a qualquer custo” é de que é preciso que nós, nessa luta por igualdade racial, consigamos abrir espaços para mostrarmos que existimos e que temos, igualmente aos brancos, direito à vida, direitos às mesmas oportunidades e condições, mas que ainda “não conseguimos respirar”.
É preciso criar, assim como o legado de Malcolm, dos Panteras Negras, da resistência quilombola (de um período ainda mais antigo), formas de organização em todo o mundo na luta antirracista. Formas de organização que não questionem apenas os antagonismo dos grupos em razão de sua etnia, mas que questione e que se empenhe em subverter a ordem política e econômica. Esse é o desafio que esteve posto a Malcolm, aos Panteras Negras, e que agora está posto a toda e qualquer pessoa negra assolada pelas mazelas do capital ao redor do mundo.
E mais do que lembrar, como fazemos agora, para honrar a memória de todas e todos aqueles que, como Malcolm, foram assassinados na luta por igualdade é preciso que sigamos seus passos nas lutas e nas organizações. Ainda é preciso que se diga: O povo negro quer ser livre. A nossa liberdade não pode esperar!
malcs
Cassiano Figueiredo é militante do Juntos Negras e Negros em Ribeirão Preto-SP

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