Sou mãe e a USP está me proibindo de estudar!

28/fev/2015, 23h29

Daniele Santana
Tem uma criança na minha sala!

Início das aulas na universidade e você se depara com um bebê de meses na sua aula de Astrofísica. Já aconteceu com você? Se não, se prepare porque as chances são grandes. Caso a situação não se resolva você ou algum colega seu irá assistir às aulas da faculdade junto com alguém que deveria estar na pré-escola.
Seguindo a já conhecida tentativa de desmonte da universidade, as 181 vagas para as creches da capital e do interior que foram divulgadas no último edital, com ingresso das crianças previsto para fevereiro desse ano, foram suspensas pela SAS através de um email enviado no final de janeiro. A justificativa foi o PIDV (Programa de Incentivo à Demissão Voluntária) que reduziu o quadro de funcionárixs que já estava defasado sem perspectiva de novas contratações.
As creches do interior divulgaram as listas de selecionados e matricularam as crianças, para cancelarem tudo após o email de 26 de janeiro. Aqui na capital não tivemos sequer acesso à lista dos selecionados, uma afronta à lei da transparência. O mesmo se pode dizer sobre o fato do comunicado de cancelamento do processo ter sido enviado apenas por email, informação esta que deveria ser aberta à toda comunidade universitária.
Negar a entrada de novas crianças na creche é o primeiro passo para o fim das creches – afinal, se não admitirem novas crianças, em 5 anos todas as turmas existentes terão se esvaziado e a creche será encerrada.
Negar acesso à creche é negar a permanência estudantil, é negar ao estudante pobre o acesso à universidade pública. É forçar funcionárixs a pagarem escolas particulares caras e de qualidade inferior.
É negar aos trabalhadores o acesso a uma educação de qualidade para seus filhxs pequenxs.
É negar às mulheres o direito de estuda. A creche se construiu através da luta das mulheres e a admnistração da USP está retrocedendo a 30 anos atrás, está impedindo as mães de terem acesso à graduação e pós-graduação.
É negar aos estudantes de pós-graduação a dedicação à pesquisa, o vai prejudicar a universidade como um todo.
É negar a nós, que somos forçadxs a levar filhxs para sala de aula, o direito de uma graduação de qualidade, e negá-lo a quem precisa conviver já que a distração é inevitável.
É negar aos professorxs e funcionárixs das creches a continuidade dos seus trabalhos, tentando aniquilar tudo o que foi desenvolvido ao longo desses 30 anos.
É negar o tripé de ensino, pesquisa e extensão. Não podemos esquecer que creches da USP ultrapassam a Assitência Social, são referência nacional e internacional em educação infantil, desenvolvimento, educação, pedagogia. Você conhece as creches? Deveria!
Estamos lutando. Desde o primeiro comunicado da SAS já tivemos um bloquinho de Carnaval – recepcionado “carinhosamente” por um helicóptero, 3 viaturas e duas Rocan da PM – um “crechaço” – A Creche na Reitoria – que “redecorou o hall de entrada da Reitoria nova e duas reuniões com O Prof Waldyr Jorge, Superintendente da SAS.
Xs funcionárixs da creche estão dispostos a receber as novas crianças e planejaram algumas adequações no atendimento para que não haja perda de qualidade e nenhuma criança fique de fora enquanto aguardamos novas contratações – que são necessárias e indispensáveis há anos! Falta apenas o Prof Waldyr liberar as listas e as matrículas.
Então não se assustem se um guri de 2 anos passar correndo por você. Se você entrar na aula e pisar num Lego. Isso dizer que ele ainda não tem creche pra ir. Quer dizer que continuam ameaçando a permanência estudantil, o direito das mulheres, dxs funcionárixs, ameaçando a universidade pública, a pesquisa e a excelência. Quer dizer que continuamos lutando por esses direitos.
E você?
*acompanhe tudo pelo CrecheCentralUSPcom.wordpress.com
Daniele Santana é mãe estudante de Filosofia da USP

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Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017