Claudia Ferreira da Silva: presente, agora e sempre

17/mar/2015, 21h51

*Marcela Lisboa e Mariane Duarte

As cenas que foram ao ar na manhã do dia 17 de março de 2014, mas que remetiam ao dia anterior, revelaram o que uma parcela da população vive todos os dias. O medo da polícia militar, a dor da perda e a injustiça para o lado mais fraco e negro da força. Coincidência ou não, mais uma Silva. Claudia Ferreira da Silva, negra, 38 anos, auxiliar de limpeza num hospital e mãe de quatro crianças foi morta brutalmente com um tiro no pescoço e outro nas costas, no Morro da Congonha, em Madureira. Seu crime? Carregar R$ 6 e um saco de pó de café.

As análises a serem feitas sobre este caso são muitas, o valor dado ao seu corpo, negro, é o que mais me chama atenção. Claudia foi arrastada por uma viatura da PM por cerca de 250 metros até que colocassem-na de volta ao porta-malas do carro e seguissem para o hospital. Chegando lá já sem vida. Morreu sem aviso, sem adeus, sem motivo, sem esclarecimento.

Esta cena foi vista anteriormente, em 2007, no caso do menino João Hélio. Duas mortes terríveis e lamentáveis, mas apenas uma carregava o peso de sua cor. Diferente de João, a grande mídia e a sociedade não se identificaram com Claudia. Não houve comoção da sociedade, nem grandes passeatas em seu nome, poucos foram os gritos de socorro que ecoaram pelas redes e ruas. Um ano depois, Claudia virou apenas mais um número.

Em outubro, por decisão do Ministério Público, os assassinos de Claudia não apenas responderiam por homicídio culposo – quando não há intenção de matar –  como não seriam julgados pela justiça comum, o que estenderia o caso por, pelo menos, mais um ano devido aos inúmeros casos de violência policial a serem julgadas. O que nos revela que, a polícia não apenas tem autorização para matar, com seus autos de resistência, como esse genocídio da população negra é legitimado pelo judiciário brasileiro, majoritariamente branco.

Um ano depois, a morte de Claudia pode ter trazido a tona o velho clichê do “só mais um Silva”, mas ela nem imaginava o quão importante viria a se tornar. Dentro de nós, uma parte morreu com aquela que poderia ser nossa mãe, tia ou qualquer uma de nós, pretas e periféricas. Por isso, esta semana, trazemos à memória a dor de sua morte, de sua dignidade violentada naquele camburão com traços de navio negreiro. Lembramos para não esquecer, para que esta dor nos impulsione inflando e dando força a nossa luta. Seguimos lutando por Claudia, por Natália e por tantas Marias. Seguimos juntos para que este não seja apenas mais um corpo caído no chão.


Marcela Lisboa, estudante de Jornalismo da FACHA e militante do juntos negros e negras e Mariane Duarte, estudante de história da UERJ e militante do Juntas e do Coletivo Claudia Silva.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017