Estupro é crime! O relato de estupro de Alexandre Frota não pode ficar impune !

03/mar/2015, 09h07

Maria Luiza Perroni
Na última quarta-feira, dia 25, foi ao ar mais um programa de humor do Rafinha Bastos, o Agora é Tarde.
O apresentador, muito polêmico, já foi alvo de inúmeras críticas por se caracterizar como um humorista que reproduz, irresponsavelmente, diversas opressões em suas piadas e brincadeiras.
Neste último programa, Alexandre Frota foi o convidado especial. Com muita tranqüilidade e naturalidade, Frota começa a narrar a história do dia em que, segundo suas palavras, “comeu uma mãe de santo”. Inicia-se a partir daí o relato de um estupro.
Rindo de forma escrachada, conta que procurou a mãe de santo para um “descarrego” e ao encontrar-se com ela surgiu um desejo, falando exatamente com estas palavras, de “comê-la”. No meio de sua fala, chama uma menina da platéia para fazer uma demonstração de como a mãe de santo, de costas para ele, se encontrava, expondo-a e a constrangendo na frente de diversas pessoas. Nervosa, a garota tenta voltar para o seu lugar, e ele ordena que ela fique até segunda ordem.
Depois de permitir que a garota retorne a sentar, ele prossegue a história dizendo que ao comunicar a mãe de santo sobre o seu desejo, e ela não lhe dando nenhuma resposta, ele inicia o estupro. Relata ainda, que apertou com tanta força o pescoço da mulher que ela veio a desmaiar durante a violação de seu corpo.
A conversa é permeada com gargalhadas e ao final, a história é aplaudida com entusiasmo pela platéia.
Frota, assim como Rafinha Bastos que ouve com muita satisfação o caso, demonstram mais uma vez o quanto a misoginia e o racismo, uma vez que a mãe de santo e a uma religião de matriz africana foram completamente ridicularizadas, encontram-se presentes e arraigados na nossa sociedade.
Essa misoginia, que mata mulheres todos os dias e viola seus corpos, transformada em piada e motivo de sátira, gera nojo e revolta.
É inacreditável que depois de tanto tempo que o movimento de mulheres, problematiza a cultura do estupro e seus efeitos devastadores na vida das mulheres, ainda existam figuras públicas que se utilizam de programas como esse para rir e ironizar a dor de uma violação sexual, sem entender a irresponsabilidade que isso significa.
Frota também demonstra o quanto o absoluto desrespeito aos elementos da cultura afro-brasileira está naturalizado. A cultura do estupro no Brasil atinge excepcionalmente as mulheres negras, que são historicamente vistas como objeto sexual, como corpos à disposição. Além disso, uma mãe-de-santo, que é uma sacerdotisa, uma chefe religiosa, ocupa uma posição de poder dentro da religião. O orgulho dele em relatar que estuprou, que “subjulgou”uma mãe-de-santo, reflete a misoginia em não aceitar a mulher numa posição de poder e reafirma o papel histórico de opressão à mulher negra.
Calar não é consentir. O silêncio da mãe de santo, não pode ser usado para justificar o ato, uma vez que diante de uma situação como essa, a vítima muitas vezes nem se quer consegue reagir.
Estupro é crime, e o Alexandre Frota deve ser punido por isso legalmente. Não podemos permitir que pessoas tão desumanas convivam livremente na sociedade, violando mulheres, causando-lhes dor e sofrimento, e matando-as cruelmente.
O estupro é uma das maiores crueldades existentes, deixando marcas tão profundas na vítima que nada pode reparar, e isso não deve ser visto como motivo de piada e aplausos em momento algum, muito pelo contrário. O estupro, assim como o Rafinha Bastos e o Alexandre Frota, merecem o nosso repúdio. Não passarão!
Maria Luiza Perroni é estudante de Geografia da USP, militante do Juntas! e do Juntos! Negras e Negros