Miriam Roselene Gabe, mais uma de nós.

25/mar/2015, 11h42

* Isabella Paiva

Não está sendo fácil ser gaúcha nas ultimas semanas. Nos últimos dias, com o episódio de estupro de uma jovem na redenção, em plena luz do dia, visto de perto por quem ali passava permissiva e silenciosamente, lembramos o quão longe estamos de andar seguras pelas ruas da cidade. Na madrugada deste domingo(22), fomos mais uma vez lembradas de que não estamos seguras nem dentro de casa, na delegacia ou no hospital. Miriam Roselene Gabe, de 34 anos, foi assassinada com três tiros pelo ex-companheiro, Júlio César Kunz, em frente ao hospital onde foi fazer o exame de corpo de delito, após denunciar, mais uma vez, suas agressões.

Ao procurar auxílio na delegacia, que dispunha de apenas um plantonista, foi aconselhada a fazer o exame de corpo de delito antes de registrar a ocorrência, sozinha, pois o plantonista não poderia deixar a delegacia. Após ter sido agredida e ter recebido zero auxílio, Miriam foi para o hospital, onde foi encontrada pelo ex-companheiro, arrastada para fora e morta, com dois tiros no rosto e um no braço. E entrou para a estatística, das mulheres brasileiras que morrem a cada uma hora e meia no nosso país, vítimas de violência doméstica.

Na contra mão das necessidades das mulheres gaúchas, o governador José Ivo Sartori (PMDB) fechou a secretaria de política para mulheres, para cortar gastos, pois para o governador é menos importante preservar a vida das mulheres  do que aumentar o seu salário, do vice, dos deputados,  ou remunerar a primeira dama, e não oferece nenhuma proposta concreta para nossas urgências.

Não é seguro ser gaúcha. Na verdade, não é seguro ser brasileira. No Brasil, 7º país no mundo no ranking de feminicidio, a violência contra a mulher é naturalizada, faz parte da cultura brasileira, é ditado popular. “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”? Pois nós dizemos que já passou da hora, já passou do número de mortes, de se meter a colher. As mulheres não podem continuar morrendo a cada uma hora e meia dentro da própria casa ou em busca de ajuda. É sabido que a maioria das mulheres que sofrem agressão, sofrem do atual companheiro, dependem dele financeiramente e possuem filhos com o agressor. Em grande parte dos casos de feminicídio, como no caso de Miriam, a vítima já havia denunciado. É um assassinato anunciado.

Sendo assim, queremos do governo estadual comprometimento real com a vida das mulheres. Do governo federal, queremos mais do que apenas reconhecer o que as mulheres já sabem bem: que esse homicídio foi qualificado, que aconteceu pelo simples fato da vítima ser mulher, pois no Brasil isso é sinônimo de não ter direito ao próprio corpo e estar à mercê da própria sorte quando o assunto é violência.

Queremos delegacias prontas e preparadas para receber as mulheres agredidas de maneira humanizada, acolhedora, e não que violente psicologicamente a mulher fragilizada, como acontece hoje.

Queremos abrigos que sejam abrigos de fato, e não que funcionem apenas em horário comercial.

Queremos as 70 mil creches prometidas há 4 anos que não vieram nem metade, para que possamos trabalhar e nos libertar financeiramente dos nossos agressores.

Queremos políticas públicas que nos auxiliem psicologicamente e que nos reinsiram no mercado de trabalho para que possamos nos sustentar. Pois, ao contrario do que nossa cultura machista e assassina reproduz, não existe mulher que gosta de apanhar, o que existe é mulher com medo de denunciar, fragilizada, sem apoio e pobre demais para abandonar a casa do agressor.

Queremos sentir que nossas vidas importam, que são nossas, que somos livres de fato para andar na rua sem medo, para fazer com nossa vida e com o nosso corpo o que bem entendemos sem nos colocar em risco. Seguimos Juntas e organizadas para conquistar esses direitos.

Em memória de Miriam Roselene Gabe e de todas as mulheres vítimas do machismo hoje, ontem, sempre.

25 de março de 2015.

*Isabella Paiva é estudante de História na UFRGS e militante da Juntas!