Nathalie Drumond: O 15 de março e os desafios da juventude

15/mar/2015, 23h05

Nathalie Drumond

Meu pai me ligou para falar das manifestações de hoje em São Paulo. Comentou comigo da felicidade que compartilhou com seus amigos de ver as manifestações novamente tomando a avenida. Estava de fato feliz. Como ele sabe que gosto de política e ele compartilha desse gosto comigo, colocou crédito no seu celular para fazer uma ligação do ABC para o Rio e avaliarmos juntos a repercussão do dia.

Ouvi bastante, porque queria entender mais o espírito de quem saiu a rua hoje. Só falei uma coisa ao final “pai, mas tinha muita gente com cartazes pela volta da ditadura”. Ele “filha, eu sei, falei com meus amigos que tem muita gente querendo tirar proveito da raiva do povo, mas a manifestação foi gigante filha: estava todo mundo na rua pelo Brasil!”.

Desliguei pensativa. Meu pai não é de direita. Ele é torneiro mecânico de formação e trabalhou muitos anos como metalúrgico nas fábricas do ABC. Em 1990, trocou o chão de fábrica – por imposição da vida – pelo ofício de motorista. Tirou carteira E e foi tentar escapar do desemprego sendo caminhoneiro, guincheiro, vendedor/motorista e, finalmente, motorista executivo da Mercedez Bens – voltando à fábrica na condição de terceirizado.

Até 2010, o partido do meu pai era o PT. Deixou de ser. Mais ou menos em 2010 também ele perdeu o contrato na Mercedez. Devido à crise internacional, muita gente perdeu o seu emprego. Foi esse motivo que deram pra ele. Desde então meu pai vive de bicos. Até que há pouquíssimos meses entrou numa parceria com um amigo pra administrar uma lanchonete em frente a uma das maiores escolas públicas de SCS, ali no nosso bairro. Está sentindo o peso da carestia de tudo e a dificuldade de tirar uma graninha com um pequeno negócio próprio.

Meu pai se desencantou com o PT. Viu de perto as maracutaias que o partido se meteu para manter seu predomínio eleitoral no ABC. Depois do PT não se organizou em mais nada. Não tolera sindicato, não gosta de partido.

Hoje não foram as organizações de classe (como os sindicatos) ou o velho PT do ABC que levaram meu pai pra rua. Foi uma direita disfarçada em nacionalismo e numa suposta luta contra a corrupção, vocalizada pelas organizações Globo.

Desliguei o telefone e fiquei pensando: como arrastar meu pai pra rua novamente, dessa vez para defender um programa verdadeiramente à esquerda? Não nos restam sindicatos, ou nos restam poucos verdadeiramente combativos, não temos ainda um partido à altura para organizar estes que estão insatisfeitos e não acreditam nas velhas estruturas organizativas. O nosso PSOL ainda está construção. Tarefa difícil.

Por hora, a conclusão que pude tirar é que enquanto reconstruímos as ferramentas que o PT desmantelou, e até que consigamos novamente estarmos conectados com gente como meu pai (e espero que não leve tanto tempo assim), a primeira coisa que posso fazer é lutar para que em cada casa que tenha um homem ou mulher como meu pai, que tenha um jovem com ideias radicais para contrapor a isso tudo.

Que a disposição de luta que a juventude demonstra nas escolas e universidades contamine novamente, como em junho de 2013, o conjunto da população. E que a juventude possa dar o tom, nessa caminhada, demonstrando que o caminho está à esquerda.

Vamos pra rua novamente molecada, construir o dia nacional de luta pela educação. ‪#‎26M‬

 Nathalie Drumond é do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos!