O desserviço de Dilma no 8 de março

09/mar/2015, 11h21

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*Marina Queiroz

Escrevo a Dilma. Ontem durante o pronunciamento do Dia Internacional da Mulher, a presidenta Dilma, infelizmente, focou apenas na questão da crise política e econômica. Sei que isso também afeta a nós mulheres, claro, mas fiquei boba o quanto você usou menos de um minuto pra falar de uma opressão que afeta somente a nós.

O Brasil é o país mais transfóbico do mundo. Ele sozinho é responsável por 50% dos crimes contra pessoas trans e isso é assunto de mulher, presidenta, aposto que você não se orgulha disso e mesmo assim você se cala. Pra se ter uma ideia precisamos de ONGs pra fazer essas contagens, já que não há nada governamental que faça isso. Pra ter o nome social nos documentos e respeitado as travestis e transexuais tem de frequentar assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras, mas pra elas morrerem por transfobia basta assumirem ser quem são. O país ainda tem 50 mil casos de estupro REGISTRADOS por ano (sabemos que muitas mulheres não denunciam por terem vergonha/medo já que a maioria dos estupradores são pessoas próximas). Nenhuma palavra também sobre isso. A cada cinco minutos uma mulher apanha. Em torno de duzentas mil mortes por causa de abortos ilegais por ano. Nenhuma palavra.

A presidenta fala que nós precisamos mudar as formas de enfrentar os problemas, mas vejo que isso fica só no discurso. Todos esses problemas citados anteriormente são ocultados no seu pronunciamento. Lembro bem sobre quando você mesma revogou a portaria que dava direito às mulheres abortarem legalmente em qualquer hospital, já que só se fazem abortos em alguns hospitais. Todas nós sabemos que eram apenas em casos que já eram permitidos por lei, mas você por medo da pressão fundamentalista religiosa voltou atrás. Mais um retrocesso em nossos direitos.
Dilma, você é mulher. Você fala que “ninguém melhor do que uma mãe, uma dona de casa, trabalhadora, uma empresária é capaz de sentir com profundidade o momento que o país vive.” Sim, consegue sim. não sou mãe, dona de casa, nem empresária. Sou trabalhadora num olhar classista, mas entendo perfeitamente o momento que o país vive: um momento de estagnação perante nossos direitos enquanto mulheres. Nos segundos que você fala diretamente pra nós diz que irá sancionar a lei do feminicídio. Não faz mais que sua obrigação, Dilma, isso não é um favor. Foi graças a luta feminista que conseguimos e é graças ao não funcionamento da lei Maria da Penha que precisamos disso.

Você faz um apelo aos “pais e mães de família” dizendo que não se pode mexer no direito sagrado dos trabalhadores, mas de outro lado você corta os gastos com os nossos direitos. Você fala em melhorar os serviços da educação, mas corta 30% dos gastos da educação da “pátria educadora”. Não consigo entender isso. Você diz que “com coragem e até sofrimento o Brasil tem aprendido a praticar a justiça social em favor dos mais pobres”, não é isso que os moradores das favelas ocupadas pelo exército sentem, não é isso que os pretos pobres presos injustamente pensam. Não é isso que as mães deles pensam, porque coragem eles têm, chegaram até aqui resistindo e sofrendo, mas até agora só viram a tal justiça social que prende um preto com pinho sol e solta um cara que bêbado matou atropelado outra pessoa.

Quando você falou do congresso nacional eu ri. Riso nervoso. Não posso acreditar que você diz ter certeza que “contará com a participação decisiva do congresso nacional que sempre cumpriu com o seu papel histórico nos momentos em que o Brasil precisou” sabendo que este é constituído em grande parte por homens conservadores e que o próprio presidente da câmara dos deputados já afirmou ser contrário aos nossos direitos, inclusive reproduzindo discursos de ódio. Lembro-me de vídeos que assisti antes de você ser eleita presidenta, meus olhos brilhavam com seu discurso, não sei o que te faz ter tanto medo agora. Não posso acreditar que em pleno dia da mulher você vem com esse discurso para fingir que nada acontece, isso é absurdo! Você é mulher e também sofre com isso. Agora eu só posso dizer o que sempre se diz: não basta ser mulher, tem que lutar por nossos direitos e infelizmente presidenta, você não faz isso. Infelizmente os tempos difíceis continuarão para nós mulheres. Teremos que lutar Juntas contra tudo isso sem a sua ajuda. Mas lutamos sempre por todas e você está inclusa nelas.

*Marina é estudante de letras da UFRN e militante do Juntas!-RN

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