A violência nossa de cada dia

Wallace MiapetEvelin Minowa 27/abr/2015, 19h04

Wallace Miapet – estudante do Ensino Médio em Mogi das Cruzes e do Juntos

Evelin Minowa – Juntos Zona Oeste e Grupo de Trabalho Estadual do Juntos SP

Acordo mais um dia, como de costume vemos as notícias da manhã. Os jornais, telejornais e o rádio anunciam mais uma tragédia terrível. Seis pessoas mortas na minha cidade, três no meu bairro (http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2015/04/assassinatos-em-mogi-das-cruzes-causam-panico-entre-moradores.html). Desses, um tinha 24 anos, outro 19 anos e um era menor de idade, 17 anos. É a segunda chacina em Mogi as Cruzes só neste ano de 2015, nos mesmos bairros ou próximos. No dia 24/01 foram cinco pessoas mortas, sendo que um deles tinha apenas 14 anos (http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2015/01/chacina-deixa-mortos-em-mogi-das-cruzes-neste-sabado-diz-pm.html). E se retomarmos mais alguns meses, no dia 21/11/14, foram mortos quatro jovens, com idades entre 18 e 29 anos (http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2014/11/quatro-morrem-e-um-fica-ferido-em-tiroteio-na-vila-natal-diz-policia.html)

Por que será que isso não é uma novidade? A pior tragédia é aquela que não choca, pois de tão recorrente, já soa banal. Sim, a morte na periferia das cidades já se tornou banal. Sem “Je Suis, Quebrada” ou plantão da Globo para cobrir os fatos, sem Datena ou Rachel Sherazade cobrando por justiça (ou por pena de morte) na televisão, sem protestos na rua. Talvez as pessoas presas ao seu individualismo não conseguem enxergar para além dos muros altos do seu condomínio ou do conforto de suas casas em bons bairros. Por isso clamam e pedem pela pena de morte e pela redução da idade penal. Nem um pio sobre a (falsa) guerra às drogas – que na verdade é uma guerra aos pobres. Porque seja pelas mãos do tráfico, seja pelas mãos da PM, a realidade é que há muito tempo no Brasil, e escancaradamente na atualidade, milhares de jovens morrem todos os dias. Nas favelas do Rio de Janeiro, como o menino Eduardo de 10 anos morreu na última Páscoa. Nas favelas e periferias do Brasil todo.

Hoje também se falou nas rádios sobre um caso ocorrido na cidade de São Paulo, em abril de 1975, que ficou conhecido como “Rota 66”. Foi uma situação em que 3 jovens (de classe média, talvez por isso a repercussão?), um menor de idade inclusive, foram metralhados pela equipe 66 da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), um dos grupos de Choque da Polícia Militar de SP. Isso sob uma acusação de tentativa de roubo, seguida de fuga e troca de tiros, sendo encontradas depois no carro dos fugitivos armas e drogas. Trinta anos depois, vem à tona a confissão de um integrante do alto escalão da PM de SP, ex-secretário de Segurança Pública na época da ditadura militar, que acompanhou o caso, dizendo que os jovens estavam desarmados e que tanto as armas quanto as drogas foram plantadas no carro dos jovens para justificar a ação violenta da PM.

Ser jovem no Brasil é uma das coisas mais perigosas. Ser jovem e ser negro então! Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. Esse hoje é o mais claro retrato que guerra de classes existe sim. E ainda nos tentam falar em democracia racial.

Não sabemos quem executou todas essas mortes em Mogi das Cruzes. Quem são os assassinos diretamente. Até porque, qual o interesse de se ter uma investigação decente sobre esses casos? Não são os filhos de nenhuma celebridade, nem de empresários ou políticos, não são os filhos de quem tem dinheiro. São os filhos da periferia, aqueles que já são culpados antes mesmo de fazerem qualquer coisa, são sempre considerados “suspeitos” pela origem, por morarem onde moram, ou seja, por serem pobres e, principalmente, por serem negros.

Se tem debatido muito nos últimos tempos a redução da maioridade penal. Um dos argumentos a favor é de que isso ajudaria a reduzir a criminalidade. Será? Por que então os dados de 54 países no mundo que passaram por essa experiência demonstram o contrário? Por que países como Alemanha e Espanha voltaram atrás depois de terem aprovado a medida?

E vamos falar sobre a realidade. O jovem da periferia hoje já vive sob condenação. Desde a infância, quando muitas vezes tem que deixar de ir à escola para ajudar no sustento de casa. Quando muitas vezes a única saída que se apresenta para ele é o tráfico. Ou mesmo se ele consegue ir à escola e não se alistar no tráfico, leva uma bala “perdida” na frente da sua casa, porque ele mora numa favela ou num bairro pobre. Queremos resolver o problema da segurança pública botando mais gente na cadeia? Ou queremos resolver o problema na raiz? As cadeias brasileiras hoje não são local de recuperação de pessoas, muito pelo contrário, são grandes centros de especialização no crime – a taxa de reincidência para adultos chega a 70%. Enquanto houver gente lucrando com a violência, ela seguirá existindo.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, defende um dos projetos que visa a redução da idade penal. Porém, o governador nunca explicou por que que com uma população quase oito vezes menor que a dos Estados Unidos, o estado de São Paulo registrou 6,3% mais mortes cometidas por policiais militares do que todo os EUA em cinco anos, isso durante os governos do PSDB. Os tucanos que governam o estado há mais de 20 anos hoje querem encarcerar uma população que é fruto de sua própria incompetência e mediocridade enquanto gestores da educação e da segurança pública. Nada é feito no que diz respeito à juventude negra, pobre e moradora da periferia, muitos preferem esquecer, fingir que eles não existem, que não é um problema de todos. Mas nós, sociedade civil explorada, não podemos deixar, temos que cobrar, sendo favelado ou não, sendo negro ou não. Pois as vítimas são nossos parentes, amigos, namord@s ou vizinhos.

A realidade de muitos (Wallace Miapet)

Atiraram na cara do fedelho

O moleque de joelhos implorava para viver

Só por que ele era preto, favelado e mal-vestido

O garoto nem teve chance de pelo menos ser ouvido

Ele só queria paz,

Violência nunca mais

Mas o policial bandido

Finalizou com aquele tiro

Todos os sonhos do menino

O coitado do seu Francisco

Dava dó só de ver

Ao saber que seu filho

Tinha acabado de morrer

Executado pelo preconceito

Acertado em seu peito

Pela intolerância racial, social

Desse povo brasileiro

A dona Maria, vish

Não conseguia nem falar

Ela ao ver todo tumulto

Após do emprego chegar

Ela viu o seu menino

Morto como um bandido

Seu coração ressentido

Queria para morte se entregar

Mas Maria não podia

Tinha mais filhos a criar

[rap]

Acabaram os sonhos

Mais olhos tristonhos

Estão a chorar

Mais vozes se calaram não podem mais cantar

Preconceito racial e intolerância social

Pra fascista favelado é sinônimo de marginal

Estão tirando a vida de quem nada tem

Pessoas humildes da milícia são reféns

Injustiçados tendem a se calar

Pois os que falam por riscos irão passar

Em ditadura burguesa esses crimes não causam surpresa

São eles que ganham com a nossa tristeza

Na TV, o cara ganha milhões pra dizer que policia tem que matar

E neguinho morrer

Vítimas de um sistema que te mata e sorri

Pixote, a lei dos mais fracos é essa aí

Mas a marca dessa perda

Não se apagou no coração desses pais

O Francisco e a Maria

Não sorriram nunca, nunca mais

Referências:

https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/

http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/em-cinco-anos-pm-de-sao-paulo-mata-mais-que-todas-as-policias-dos-eua-juntas-20110607.html

http://oglobo.globo.com/opiniao/o-mito-da-reducao-da-maioridade-penal-15759255#ixzz3WAMVYeSd