Chega de Racismo na UFRGS

02/abr/2015, 12h03

*Vinícius Piruca

No dia 24/03/2015 o DCE da UFRGS fez um evento cultural próximo ao RU do centro, com cantores de RAP e alguns grafiteiros, elementos da cultura Hip Hop, além de panfletagens sobre a Pátria Educadora. O estudante Bernardo compartilhou em seu perfil do facebook, essa pauta levantada pelo DCE com os seguintes dizeres: “Já tão transformando novamente o DCE naquele mix gostoso de boca de crack com zona de guerra”

Eu apenas gostaria de saber se o Sr. Bernardo (e todos aqueles que não enxergaram racismo no comentário descrito) fazem alguma ideia do que representa uma boca de Crack; se tem a mínima noção do que é estar em um ambiente onde pessoas morrem por 50 centavos de droga; onde muitas vezes meninas que nem atingiram a fase da adolescência se prostituem para sustentar o vício; onde o roubo, o furto, a prostituição e principalmente a violência são comuns e costumeiramente usadas como moeda de troca; num lugar onde não há qualquer tipo de conforto ou paz que não seja interrompida constantemente por traficantes, usuários ou a polícia; Onde se deve ao máximo possível evitar cair no sono, para que os ratos não comam as feridas que estiverem expostas; Onde se deve ao máximo possível evitar cair no sono para que outros usuários em situação semelhante ou pior de indigência não roubem seus poucos pertences para conseguir mais da pedra tão desejada e cobiçada, capaz de substituir todos os sonhos e esperanças de seu usuário; Onde se vive com dor e angústia quase que 24h por dia e basicamente o único momento de alívio é quando a droga faz o devido efeito na mente embriagada; Um lugar de extrema miséria e penúria onde pessoas morrem afogadas no próprio sangue. Será que alguma vez foi indagado como é o horror de uma boca de Crack e será que alguma vez na vida foi questionado porque esse “habitat” é formado em sua gigantesca maioria por jovens pobres e negros?

Sério, ainda estou confuso e querendo saber qual foi o ponto de referência usado como comparação, onde a Boca de Crack com Zona de Guerra se assemelha ao movimento estudantil apresentado nesta data. Um episódio do movimento estudantil onde alguns elementos da cultura Hip Hop aparecem, a mesma cultura que nasceu de uma luta contra o preconceito racial nos guetos norte-americanos, a mesma cultura que hoje luta por igualdade social, a mesma cultura que tira diversas pessoas do mundo do crime todos os dias no nosso país, que conscientiza tantos e tantos jovens dentro e fora das periferias e ainda assim, é relacionada de maneira ridícula a boca de fumo (neste caso do crack). O racismo apresentado é antigo e enraizado, do tipo: “O que aqueles pé rapados fazem aqui? O lugar deles é na favela, morrendo, traficando, roubando, se viciando em zonas de guerra, superlotando os presídios e não na Universidade”. Esse post me lembrou inclusive o processo de adesão as cotas que a UFRGS passava em 2007, onde fora pichado que lugar de negro era na cozinha do RU. Desta vez o racismo foi mais sútil, mas não se enganem, pois a opressão é a mesma. Desta vez o preconceito não foi diretamente ao lugar do negro na sociedade, mas sim ao lugar que sua cultura deve ocupar. O Hip Hop, que sim faz parte da cultura negra e faz parte da cultura da periferia, na visão do referido estudante, não merece estar presente na Universidade. Essa foi a mensagem passada: Lugar de Hip Hop não é aqui, essa gente cantando RAP e grafitando deveria estar na boca de fumo. Será que é a primeira vez que o referido estudante se depara com “essa gente” na Universidade? Detalhe: Uma universidade pública cujo lugar deveria ser “dessa gente” por direito.

É realmente uma pena que alguns estudantes de uma das melhores universidades do país, que teoricamente são pessoas informadas e bem instruídas, fiquem disseminando este preconceito tolo, ignorando todo o passado histórico desta nação.

Print do post de Bernardo no grupo da UFRGS no Facebook:

bernardo

*Vinícius Ribeiro Correa (Piruca), estudante de matemática na UFRGS e militante do Juntos Negras e Negros.