Sobre a morte do menino Eduardo: O Estado assassina sonhos outra vez!

03/abr/2015, 16h55

Malu Perroni

O caso de Eduardo mata sonhos e esperanças.

Eduardo de Jesus Ferreira tinha 10 anos. Brincava na rua, ia para a escola todos os dias, tirava boas notas e sonhava em ser bombeiro. Poderia crescer, terminar os estudos, tornar-se bombeiro, salvar vidas diariamente, constituir uma família e passear aos fins de semana com os filhos pelo parque.  Poderia viver por mais 50 anos e realizar esses, e tantos outros planos, não fosse um menino pobre, negro, morador do conjunto de favelas do Alemão, que como tal, já nascera na mira da polícia militar.

Ontem, 2 de abril de 2015, Eduardo que se encontrava sentado em frente a sua casa, teve seu corpo atingido por uma bala de fuzil que estourou o seu crânio. Um vídeo, gravado por moradores da comunidade, mostra o desespero da mãe, gritando com a voz engasgada pelo choro, e a covardia do policial que, após assassinar o garoto, dá as costas friamente ao sofrimento que causara.

A polícia militar que ontem matou Eduardo, é a mesma que ano passado arrastou o corpo de Cláudia pela rua, é a mesma que desapareceu com o corpo do pedreiro Amarildo deixando sua família sem resposta. A PM que matou Eduardo, é a mesma que matou o João quando ele brincava de pipa, é mesma que atirou em Maria quando ela chegou em casa depois de um dia de trabalho, é mesma que destrói sonhos e vidas de diversos jovens da periferia.

Não é mera coincidência que as “balas perdidas” acertem majoritariamente os negros e negras pobres deste país. Fardados de preto, trazendo a morte em suas mãos, e tendo o aval do Estado, policiais sobem os morros e promovem uma verdadeira chacina diariamente, com aqueles que já se encontram à margem da sociedade, privados de tudo, principalmente de oportunidades.
É exatamente neste contexto que a PEC 171, que propõe a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, ganha força e está a poucos passos de ser efetivamente aprovada. Gritamos por redução da maioridade penal em um país que assassina crianças de 10 anos enquanto elas brincam na porta de casa. Parte destas crianças, mortas pela violência e crueldade da polícia militar, agora são alvos desta emenda constitucional que quer jogá-los em uma cela imunda esquecendo das suas existências.

Nossas crianças já são mortas todos os dias, a cada hora, em cada esquina. Crianças negras já nascem, praticamente, algemadas e condenadas, sem futuro e excluídas dos direitos mais básicos. Reduzir a maioridade penal não é a saída, uma vez que estes jovens adentraram ao mundo da criminalidade por ser a única porta aberta que encontraram, pois o Estado não fornece políticas públicas capaz de cuidar dos nossos jovens periféricos, e oferecer a eles uma educação digna, ou seja, estes jovens são a causa de um sistema que por si só é violento e segregador. Não podemos puni-los se nem se quer o educamos.

É preciso acabar com essa lógica que culpa e mata jovens pela criminalidade, enquanto inocenta deputados que se envolvem em crimes de corrupção, com lavagem de dinheiro, provocando a miséria de milhares de pessoas.

Precisamos entender os reais problemas sociais que cercam a nossa sociedade e compreender as suas causas.  Não podemos permitir mais que crianças como o Eduardo, morram na mão da PM, treinada e protegida pelo Estado. A Polícia Militar é um dos resquícios da Ditadura, que ainda hoje serve como órgão repressor do Estado e vê no cidadão comum, preferencialmente os pobre e negros, seus maiores inimigos. Desta forma, o fim da PM é imprescindível para que o genocídio com a população negra pare de uma vez por todas.

Quantas mais crianças precisarão morrer para repensarmos essa lógica assassina? Quantas mais mães, como a Dona Terezinha, irão chorar amargamente sobre os corpos de seus filhos ensanguentados? Quantos litros mais de sangue negro escorrerão dos morros para que se perceba que o Estado provoca uma verdadeira chacina frente aos nossos olhos?

O silêncio não faz , e nunca fará, parte do nosso idioma. Continuaremos a resistir, a gritar por justiça e lutar incessantemente pela liberdade das crianças e dos jovens negros.

Toda solidariedade e apoio à família de Eduardo. Seguimos na luta.

Malu Perroni é coordenadora da Rede Emancipa de Cursinhos Populares e do Juntos! Negros e Negras SP