14-M no Chile: Gigantescos protestos em defesa da Educação e noite de luto

Charles Rosa 15/maio/2015, 23h25

Os estudantes chilenos vivenciaram uma quinta-feira, 14 de maio, de luta e de tragédia. Centenas de milhares de jovens voltaram a tomar as principais alamedas do país para exigir que o governo Bachelet incorpore suas demandas no processo de reformulação do sistema educacional. O clamor popular é para que se enterre de vez o modelo de ensino do ditador Pinochet, orientado para os lucros dos grandes empresários, enquanto as famílias trabalhadoras precisam optar entre comer dignamente ou estudar.

Entretanto, Michelle Bachelet (cujo mandato atravessa uma crise de legitimidade, por conta de um grave escândalo de corrupção, envolvendo inclusive o seu filho) parece ter se esquecido das promessas eleitorais de 2014. Capitalizando nas urnas a indignação juvenil contra o governo ultra-conservador de Sebastián Piñera, o programa apresentado pelo Partido Socialista vendeu a esperança de um maior protagonismo do povo nas decisões mais importantes da nação. Sonhos de um marketing de verão! Hoje, em Santiago, comenta-se que é mais fácil dialogar com a Cordilheira dos Andes do que com o Palácio de la Moneda. A exceção, evidentemente, é aberta para os megainvestidores, que possuem trânsito livre nos gabinetes ministeriais.

No próximo dia 21, a presidenta da República  pretende anunciar um projeto cosmético de reforma da Educação, ignorando totalmente os aportes dos estudantes e professores. Aqueles que cotidianamente sentem na pele as consequências da mercantilização de um direito e que há décadas debatem sobre o tema são deixados de fora da escolha das diretrizes que guiarão suas próprias vidas.

É neste contexto que a juventude chilena paralisa o país pela segunda vez em menos de um mês. O que se pede é o mais essencial de uma democracia: #QueChileDecida sobre o seu futuro. A resposta das autoridades, infelizmente, tem sido previsível: jatos de água suja, cães intimidadores e “carabineiros” premeditadamente descontrolados. Ontem, essa conduta oficial se repetiu em Valparaíso, onde uma forte repressão se desencadeou sobre a marcha multitudinária.

No mesmo instante em que a polícia preocupava-se em desbaratar a mobilização pacífica, dois ativistas estudantis eram assassinados. Diego Guzmán (25 anos) e Exequiel Borvatán (18 anos) realizavam atividades de apoio à convocatória do 14-M, quando foram alvejados por um rapaz, que já havia propagado ameaças contra outros manifestantes. É preciso que se investigue a fundo esta tragédia nebulosa e que se responsabilize, desde já, tanto a mídia quanto os políticos que criminalizam as lutas sociais, estimulando esse tipo de barbárie.

A tristeza não poderia ser maior entre o conjunto de estudantes chilenos, que desde a confirmação dos falecimentos tem dado diversas demonstrações coletivas de luto. Daqui do Brasil, enviamos os mais consternados sentimentos de solidariedade e de apoio aos nossos irmãos chilenos, que desde 2011 nos inspiram e nos ensinam bastante. Temos a convicção de que a memória de Diego e Exequiel será honrada pelas novas mobilizações massivas que certamente estão por vir nos próximos dias. Os lutadores ausentes se farão presentes quando a educação de Pinochet finalmente cair. E vai cair.

Charles Rosa é da Equipe de Comunicação do Juntos!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017