Brisa boa de verdade só se for com igualdade!

Juntas 21/maio/2015, 18h21

Querem nos controlar mas são tão descontrolados: Não fala alto. Não chame a atenção. E essa saia? Cobre a barriga. Fecha a perna. Passa uma maquiagem nessa cara. Não dance como uma vagabunda. Não beba. Não perca o controle. Um homem bebendo já é feio, menina então… Não pega todo mundo. E os namoradinhos? Trocou de namorado de novo? Que coisa feia, chapada e dando vexame. Também né? Mereceu.
Infelizmente, nós mulheres somos desde cedo submetidas ao controle dos familiares e da sociedade de conjunto, nosso corpo e nossas atitudes são vigiadas o tempo todo, e com o decorrer dessas experiências, nós aprendemos a vigiar à nós mesmas, o que gera uma série de inseguranças, pois nos sentimos obrigadas à atender um padrão de comportamento inatingível.

Se vamos curtir algum rolê, beber e chapar pode ser um jeito de nos sentirmos mais à vontade pra nos jogar, desencanar do cabelo e esquecer o que pensam os outros. Assim como todo mundo que nos cerca, usamos drogas pra nos divertir. Acontece, que já que o uso de drogas como o àlcool e a maconha está relacionado à perda de controle, nós também somos muito mais discriminadas por isso, chegando ao ponto de o fato de termos bebido ou usado alguma outra droga recreativa justificar à violência da qual somos vítima. Quem não se lembra do caso de estupro no Big Brother Brasil de 2012, em que não faltou gente dizendo que a moça teria merecido porque estava caida bêbada? Violências como essa acontecem em muitas festas, e muitas conhecidas nossas passam por isso, não faltam exemplos. O fato de ficarmos loucas, não pode legitimar violência nenhuma, o corpo continua sendo nosso, a culpa continua sendo do agressor. Temos direito ao nosso corpo, independente do nosso estado de consciência.

A cultura do estupro é tão naturalizada, que perdemos a conta de quantas vezes já ouvimos estupro como piada, como recentemente com o Alexandre Frota. Nas propagandas de cerveja, além da objetificação dos corpos femininos, tivemos de ver vários outdoors estampados pela skol com a infame “brincadeira” de carnaval: esqueci o “não” em casa. É sintomático uma marca de cerveja ter uma propaganda com esse teor, afinal, segundo a mente de milhares de homens no mundo, se a mulher não disse que não queria ela consentiu, ela merece ser estuprada. Por isso, ano passado, o tema da marcha das vadias foi “quem cala não consente”. A preocupação que levou esse tema a ser escolhido foi o fato de que muitas pessoas (mulheres e homens) nem ao menos sabem que QUALQUER relação sexual não consensual é estupro, não importa que ela não tenha dito não.

O uso de drogas sempre existiu, desde que existe gente na terra, tem gente que se droga. Seja pra recrear, seja por crenças religiosas, e seja lá pro que for. Estamos falando sobre algo que acontece, e achamos que precisamos nos fortalecer como mulheres para enfrentar a opressão também reproduzida em espaços supostamente libertários.
Quando o assunto é a maconha, quantas meninas tem autonomia de comprar sua própria droga? Quantas bolam seu baseado? Quantas não são ignoradas numa roda de beck, como se pelo fato de você ser mulher deixasse pressuposto que você não fuma, ou que isso não é coisa de menina que se dê o respeito? Não temos o direito de nos divertir como todo mundo, mas podemos ter nossos corpos estampando propagandas de cerveja? Ultimamente, com a abertura do debate pela legalização das drogas, sobretudo da maconha, vem crescendo a necessidade de nós mulheres ocuparmos esses espaços políticos. Como é amplamente discutido pelo movimento pró legalização, a atual política de drogas é um fracasso, criminalizando as populações em siuação social mais vulnerável, e nós, mulheres, somos parte disso: hoje, o porte de drogas se constitui como o principal motivo de prisão de mulheres no Brasil, muitas vezes tentando entrar com droga na penitenciária ou para livrar seus companheiros, somos nós também que estamos nas filas das penitenciárias para visitar nossos filhos e maridos presos por relação com o tráfico, nós que, quando usuárias carregamos o rótulo de promíscua, sendo assim, culpabilizadas pela violência da qual somos vítima. Porque temos tanto mais dificuldade pra assumir que curtimos beber SIM e fumar SIM? O fato de sermos mais estigmatizadas que os homens por fumarmos não pode nos intimidar de fazer esse debate tão necessário e urgente. A ligação da mulher com a maconha não pode ser objetificada como no caso da cerveja só pra incentivar a venda. A hora de ocupar esses espaços é agora!

Por isso, sejamos livres, vamos nos divertir, beber se quiser beber, fumar se quiser fumar, usar a roupa que quisermos, abrir as asas e soltar as feras. Vamos debater política! Vamos ocupar as ruas, marchar contra o machismo pela legalização com a PL 7270 do Dep. Jean Willys que regula a produção, a industrialização e a comercialização de Cannabis, batalhar por espaços de fato libertários para todos e todas! Não precisamos ter a postura que esperam de nós, e respeita as mina.

Calendário das marchas:
• Marcha da maconha: 23/05 à partir das 14h no vão do MASP (concentração do Juntos! à partir de 12h)
• Marcha das vadias: 30/05 à partir das 11h no vão do MASP (vamos marcar concentração, fiquem atentas!)

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017