Juntos! participa de debate sobre violência no O Diário de Mogi

Wallace Miapet 07/maio/2015, 00h44

Essa semana eu participei de um debate promovido pelo jornal “O Diário de Mogi” para debater sobre as chacinas vem ocorrendo nos últimos tempos em minha cidade, Mogi das Cruzes.  Representando os alunos da rede pública, e claro, as idéias do Juntos!, na companhia de nosso companheiro debati com vários representantes da sociedade civil  da minha cidade como o delegado seccional assistente Júlio Vaz, a presidenta do Conselho Municipal de Juventude, Alessandra Monteiro, o juiz diretor do Fórum de Mogi das Cruzes, Bruno Machado Miano, a socióloga e professora da Faculdade Paulo VI, Marina Alvarenga, o pároco da Catedral de Santana, Padre Claúdio Taciano e o tenente-coronel e chefe do Estado Maior da PM no Alto Tietê, José Luiz de Souza, além de outros estudantes, a aluna da “ETEC Presidente Vargas”, Isabella Grisaro e o aluno do “Colégio Brasilis”, Gabriel Ciaccio. O mediador do debate Darwin Valente, editor-chefe do jornal me perguntou sobre minha impressões enquanto a aluno da escola de dois das vítimas das recentes chacinas e morador da Vila Caputera, bairro que foi palco de duas chacinas em apenas três meses.

Lamentamos que não estava presente nenhum representante do movimento negro para participar da mesa, pois é de extrema importância e necessário que eles participassem do debate, porque é sabido que a principal vítima da violência nas cidades é a juventude negra e também seria a mais afetada caso a redução da maioridade penal fosse aprovada.

Segundo os dados da Anistia Internacional, em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados’. Esse é pra mim hoje o maior problema social do nosso país e também o mais claro retrato da divisão de classe no nosso país… Hoje o estado se faz presente nas periferias, além das escolas estaduais que muitas vezes são ruins, quase exclusivamente por meio da polícia. Hoje há uma rejeição muito grande à PM por parte dos moradores das periferias e a maioria das vítimas da violência policial só os jovens negros da periferia. A polícia é racista? Não sei se é correto afirmar que a polícia é racista, mas o estado brasileiro é racista e é segregador. Prova disso é que existe um foço entre a diferença de tratamento entre os jovens da periferia e os jovens de regiões mais centrais, além disso há uma ausência de investimentos em políticas públicas , de educação e cultura para esse jovens, que acabam virando presas para o crime. Então o que esperar dessa juventude? Que vive segregada em morros e vielas”.

Após minha afirmação o mediador passou a palavra o tenente-coronel José Luiz de Souza que respondeu minhas críticas dizendo que a PM não é racista, prova disso o fato de ele ser negro e ocupar um cargo de comando na instituição e além do fato de existir muitos policiais negros na corporação e justificou o fato da PM ser rejeitada nas periferias por causa da influência dos traficantes na comunidade e dos jovens não gostarem do fato de serem policiados pela PM. Claro que ao fazer essa afirmação o tenente-coronel ignora que existe uma ideologia na policia e que mesmo que existam policiais negros, o principal foco das ações policiais são exatamente a população pobre e periférica, majoritariamente negra e que ainda existe em nossa sociedade o imaginário de associar pobreza e negritude à criminalidade. No decorrer do debate alguns integrantes da mesa como a professora Marina Alvarenga e a presidenta do Conselho Municipal de Juventude se referiram aos termos “bolha” e “borda” para se referirem aos jovens que vivem nos centros e áreas nobres e aos jovens moradores de subúrbio e periferia, respectivamente. Segundo a fala da professora Marina e do aluno Gabriel Ciaccio, os jovens da bolha, apesar de indiretamente também são vítimas da violência, já que, segundo eles, os jovens da bolha são vítimas do jovens da borda quando estes por incompetência do estado são cooptados pelo crime, sendo muitas vezes restritos do direito de ir-e-vir.

Foi pautado também, em consenso entre os debatedores, a responsabilidade do sistema capitalista na exclusão social e na “produção” de criminosos.

“Esses meninos que vivem nas margens encontram no crime a oportunidade de ter aquilo que nunca tiveram, o crime pra eles são uma via empoderamento” disse a professora Marina Alvarenga.

Posições semelhantes foram colocadas por mim, pelo juiz Bruno Miano e pelo tenente-coronel da PM.

“O governo promoveu o acesso desses jovens à cidadania por via do consumo”, eu comentei. O padre Claúdio Taciano atribui isso à deterioração dos valores morais e familiares da sociedade e também à falta de amor, fala essa que foi ressaltada pelo delegado Júlio Vaz. Que também foi perguntado se as recentes chacinas foram cometidas por grupos de extermínios como foi levantado pelo juiz Bruno Miano, o delgado Júlio Vaz respondeu que não era possível saber quem eram os responsáveis pelas mortes. O debate que durou mais ou menos duas horas entrou em temas como guerra às drogas e redução da maioridade penal. Nas falas finais critiquei uma parte da mídia, por veicular programas policiais de cunho sensacionalista que constroem esse imaginário que liga pobreza e negritude ao banditismo, e esclareci ao tenente-coronel que nós da esquerda e defensores dos direitos humanos não somos contra a polícia e os policiais por princípio, e sim cobramos e a criticamos por acreditar que a polícia deveria ser outra, que não deveria ser militarizada e assim poderia ser aliada dos direitos humanos.

Wallace Miapet é militante do Juntos! em Mogi das Cruzes