O “fim da abolição” e suas consequências diárias

Eduardo Silva 13/maio/2015, 13h22

Jovem negro preso ao poste, no RJ. 2014

Jovem negro preso ao poste, no RJ. Fevereiro 2014

13 de maio de 1888 é a data oficial do fim da escravatura em solo brasileiro, neste dia a ultima regente do império no Brasil Princesa Isabel assinava a chamada lei áurea, que pôs um fim nos 388 anos em que o negro foi escravizado nestas terras tupiniquins. Esta data, entretanto, não costuma ser vista como uma data comemorativa pelo movimento negro brasileiro. E o motivo disto é muito fácil de ser explicado, tendo em vista as péssimas condições dos negros após o período da escravidão.

Quando este período de trevas terminou no Brasil, nada foi feito pela classe dominante para inserir o ex-escravizado dentro da sociedade, dando-lhe condições mínimas de construir uma vida digna. Este negro que agora não tinha mais correntes nos pés e nas mãos permanecia acorrentado pelas próprias condições advindas desta servidão, pois nenhuma instituição assumiu a responsabilidade de prepará-los para a nova forma de trabalho, deixando-os à deriva da própria sorte.

Seria necessário que o recém liberto tivesse acesso à terra, e com este recurso  conseguisse se manter depois de anos de humilhações, todavia nada foi feito para que isto ocorresse de fato, e o negro conseqüentemente permaneceu às margens da sociedade, como alguém que não deveria estar ali, um verdadeiro intruso que já que não estava sob o peso da servidão, não servia para mais nada.

Assim sendo, o dia 13 de maio não cativa a memória do negro como sendo uma data de felicidade, mas sim uma época em que as correntes apenas foram trocadas  de uma forma visível  para uma forma subjetiva e oculta para a grande parte da sociedade, mas vivenciada diariamente pela comunidade negra brasileira.

Pois esta comunidade até os dias atuais sente o peso do dia 13 sob as costas, pois percebe que mesmo tendo se passado 127 anos da tal abolição, as conseqüências advindas daqueles dias ainda assombram a negritude.

Percebe-se que o fato da população negra encabeçar os índices de assassinato neste país e a mesma sofrer com a falta de acesso aos direitos humanos básicos é fruto do racismo institucionalizado, e negar isto é compactuar com o mesmo pensamento existente naquela época.

Portanto apesar de que em 1888 uma lei foi criada para acabar com a escravidão, esta ainda assombra milhares de brasileiros e brasileiras que levam no corpo as marcas de uma sociedade que se nega a ver as conseqüências desta atrocidade, por conseguinte é necessário que a luta continue diariamente até que se apague todas as marcas que este regime social de sujeição deixou, e tão somente assim um dia poderemos ter uma sociedade verdadeiramente igualitária.

Eduardo Silva é militante da setorial de Negrxs do Juntos/RN