Por amor às mães brasileiras, estamos Juntas contra a Redução da Maioridade Penal!

Karina Silva 07/maio/2015, 23h49

Próximo a mais um dia das mães, um pensamento invade e martela insistentemente minha cabeça:

Quantas mães ainda irão chorar por seus filhos assassinados pela repressão sectária, racista e genocida da polícia, para que o excelentíssimo Presidente da Câmara dos Deputados, o senhor Eduardo Cunha e tantos outros políticos que desejam reduzir a maioridade penal, possam  posar de “heróis justiceiros” da elite conservadora e fundamentalista brasileira, em troca do sangue de seus filhos?

Sim companheiras, muitas de nós ainda não somos mães ou optaremos por não ser – esta é uma escolha que só cabe a cada uma decidir. Entretanto, somos companheiras, mulheres de luta e devemos nos manter unidas e solidárias com a dor de milhares de mães que perderam seus filhos devido à repressão desumana e sanguinária da polícia, amparada pelo estado e por outras esferas do governo, que se apropriam ordinariamente e sorrateiramente da questão da violência no Brasil para aprovar um projeto de lei que visa apenas o encarceramento da juventude negra e pobre, e que irá certamente ampliar o número de mortes desse público.

Tem-se a impressão de que para a maior parte dos policiais prevalece a máxima de que há uma “classe altamente perigosa” composta por jovens negros e moradores da periferia. Esta alegação que já está enraizada, rege as ações repressivas e abusivas de uma classe que deveria proteger a população e não exterminá-la.

Segundo dados levantados pelo portal jornalístico Ponte, o número de mortes decorrentes de ações de PMs no estado de São Paulo subiu 62% no primeiro semestre de 2014. Nacionalmente, esse número atinge proporções mais graves.

De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, nos últimos cinco anos, o total de mortes decorrentes de ações policiais é de 11.197 – o equivalente aos das polícias dos Estados Unidos em 30 anos.

Acontece, cotidianamente, uma verdadeira guerra nas periferias do Brasil, silenciada pelas grandes mídias, na qual o alvo é o jovem negro e pobre. Não há espaço para debates, não há apurações, prevalece apenas o abuso de poder, totalitarismo, racismo e o genocídio. O medo e a constante sensação de impunidade envolve a vida daqueles que residem ali. Fica mais que claro que polícia age de acordo com o CEP, cor e condição social.

A pergunta que fica para o senhor Eduardo Cunha, diante dessa brutal realidade é: quantas mortes de jovens serão necessárias para que ele possa posar de “justiceiro”, com soluções racistas e classistas que mascaram os reais problemas do Brasil e que visam somente o encarceramento, estimulando ainda mais repressões cruéis, assassinatos, autoritarismo  e o abuso de poder por parte da polícia?

A redução da maioridade penal representa simplesmente um alívio de consciência para Cunha e toda a corja que o acompanha, pois acreditam que encarcerando a juventude negra e pobre, eles estarão justificando perante a sociedade, anos e anos de um cruel e sistemático descaso que atinge em maior parte a mesma população a qual desejam encarcerar e eliminar gradativamente.

É muito mais valido e prático para Cunha e seus pares políticos, apresentar “soluções aparentemente fáceis” para combater seus descasos perante a população, mascarando os reais problemas do Brasil de fundo social, econômico, político e educacional.

O Brasil de forma geral é um país onde impera a má gestão dos programas sociais, educacionais; onde há poucas ações de planejamento familiar, falta de lazer nas periferias e investimento em projetos de urbanização de favelas, mínimo ou quase nenhum policiamento comunitário, falta de estrutura na área da saúde e dentre outros fatores. E a solução apresentada pelo Presidente da Câmara e seus pares políticos é a de encarcerar, ou seja, ampliar as celas?

Não podemos permitir que esse retrocesso vigore. Devemos Juntas nos mobilizar para dizer um grande NÃO à PEC 171/1993 e ao Eduardo Cunha, que é uma das maiores figuras representativas do que há de mais conservador, retrógrado, machista, fundamentalista, classista e podre no cenário político atual .

Essa luta contra a redução da maioridade penal contempla outras lutas, como a legalização das drogas, a descriminalização do aborto, a desmilitarização da polícia, maior valorização dos professores e outras tantas lutas que se fazem necessárias para que haja de fato uma transformação social no Brasil.

Essa é uma luta de todas nós!

A luta das mulheres muda o mundo!

Trechos da Música: Muita Treta – Racionais Mc´s.

“É muita treta, viver num lugar onde ninguém te

respeita.

Onde a policia rola e deita em cima dos

humildes.

Ela espanca uma pá de cidadãos de bem.

Ela pega o menor e joga ele na FEBEM”

“É muita treta, ver a paz cada vez mais

distante.

Ouvir tiros e saber que são meus manos se

afogando, no próprio sangue…”

“É muita treta, ver a educação restrita os manos

morrendo na fita, então por isso reflita, insista, por

melhores condições pro seu povo e pra você para isso é

necessário um correto proceder.

De que adianta posar de

arma na mão, vender drogas pros irmãos que estão

morrendo pelas ruas, ou dentro da prisão”

“É muita treta é o sangue que corre no meio da favela.

Troca de tiro, corpo no chão, cartucho de escopeta, a droga que mata meu povo.

A polícia que sobe o morro, moleque desaparece da área, depois é encontrado morto. Outro irmão sem perdão executado”.

Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=J_WwkfklevQ&ab_channel=de5by

Karina Silva Farias, Jornalista e militante do Juntas São Paulo.

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