Anti-capitalismo e as lutas democráticas: em busca da totalidade

Bernardo Corrêa 01/jun/2015, 04h12

“A totalidade não significa todos os fatos. Totalidade significa: realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjuntos de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido. Acumular todos os fatos não significa ainda conhecer a realidade;e todos os fatos (em seu conjunto) não constituem ainda a totalidade”.

Karel Kosik, A dialética do concreto, 1963.

Os intelectuais acadêmicos e pequeno-burgueses, influenciados pelo pós-modernismo, pelo ceticismo, pelo individualismo, pelo relativismo e tantos outros “ismos” costumam professar a idéia de que é impossível encontrar no exame honesto e científico da realidade, as principais tendências de seu movimento e, muito menos, as possibilidades imanentes de sua transformação. Isso porque a realidade se apresenta de forma tão fragmentada que nenhum tipo de teoria/narrativa/discurso poderia dar conta de encontrar uma “unidade no mundo”. A essência do movimento da realidade, seria incompreensível a nós humanos com nossa cabeça animal.

Por outro lado, os pós-modernistas também têm diferentes posições políticas no interior de sua vertente intelectual e os setores mais à esquerda (ainda que não gostem de se definir assim) propõem, a partir da análise supracitada, que as lutas contemporâneas carregam a marca da fragmentação tanto como necessidade quanto como virtude. O que queremos defender aqui é que aceitar este pressuposto, significaria cravar uma estaca no coração do socialismo científico.

Como definiu o historiador Terry Eagleton: “Pós-modernidade é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação”. Como veremos, frente a uma situação de fragmentação das lutas e ofensiva do capital, estas ideias ganharam certo peso mesmo entre os anticapitalistas. Nosso intuito aqui é desmistificar algumas “verdades” alardeadas pelos pós-modernistas, por meio do conceito de totalidade concreta e, ao mesmo tempo, refletir sobre como as lutas democráticas e/ou parciais se conectam por meio da luta anticapitalista.

Concordando com a caracterização de Eagleton, cabe uma primeira pergunta, que constitui a primeira parte da reflexão que propomos aqui. Se as ideias não têm vida própria e se constituem sobre uma base objetiva, quais as condições para o surgimento da idéia de pós-modernidade? Para respondê-la vale voltar um pouco na história.

1968: nem a falsa liberdade do imperialismo, nem o falso socialismo da União Soviética

O ano de 1968 foi um marco na história da humanidade. O que ficou mais conhecido foi o maio francês, mas o mundo inteiro foi sacudido por mobilizações em defesa dos direitos civis, contra as opressões e pela liberdade. Martin Luther King e Malcom X encabeçavam a luta antirracismo nos EUA, ao mesmo tempo em que na antiga URSS o povo de Praga (na antiga Tchecoslováquia) realizava sua “primavera” contra os tanques de guerra da ditadura estalinista, reivindicando um “socialismo com cara humana”. No Brasil, os estudantes tomaram as ruas contra a ditadura militar e tantos outros países foram às ruas naquele ano. Mas o que estava em jogo?

O mundo estava polarizado após a Segunda Guerra Mundial em dois blocos: no Ocidente, os países do bloco imperialista, capitaneados pelos EUA. No Oriente, o bloco socialista, capitaneado pela URSS. Apesar de a Guerra Fria aparentar um antagonismo de interesses, o que estava por trás era um acordo de “coexistência pacífica” que reproduzia nos dois blocos o esgotamento de ambos os modelos. Seguindo os passos de Alan Bihr, podemos dizer que a marca deste período é a “rigidez”, seja do fordismo e da figura do operário-massa que coexistia no Ocidente e no Oriente, seja da política estalinista ou da dominação imperialista que esmagava os direitos democráticos em nome das ideologias do american way of life e do socialismo burocrático.

Neoliberalismo, fragmentação e anticapitalismo

As lutas que se seguiram envolveram inúmeros aspectos (desde anticolonialismo até o fortalecimento das lutas feministas, ecológicas e LGBTs) e culminaram em uma segunda onda no final dos anos 80, que acabaram por derrubar a ditadura estalinista do leste europeu. Entretanto, a queda do estalinismo não significou uma revolução política que derrotasse o imperialismo. O que aconteceu foi a deturpação de muitas das pautas de 1968 nos marcos do capitalismo globalizado com novas justificações. Além de ter um reimpulso produtivo por meio da microeletrônica e financeiro por meio da mundialização das finanças, o capital também incorporou à massa de mais-valia os antigos países do “socialismo real”, especialmente os países que compunham a antiga URSS e a China. Bilhões de pessoas passaram a ter seu trabalho explorado pelos antigos burocratas, agora capitalistas. O capitalismo aceita mutações do ponto de vista das lutas democráticas desde que não se modifique a essência que é a exploração do trabalho e os lucros do capital.

Desta situação concreta passou-se a uma fase marcada pela hegemonia neoliberal. Gerações inteiras foram vilipendiadas pelo trabalho precário, pelo individualismo e pela ideologia do “cada um por si”. Não era de se esperar que se enfraquecesse a ideia de classe trabalhadora? Classe é uma categoria generalizante, indivíduo seria sua singularidade. Com a fragmentação, a terceirização, etc. não seria de se esperar que os sindicatos de enfraquecessem? Com a falência do “socialismo real” e da social-democracia, não seria de se esperar que os partidos de esquerda perdessem credibilidade?

Uma boa parte dos intelectuais e social-democratas de plantão passou então a um elogio da parte e um combate ao todo. As dificuldades herdadas das derrotas e insuficiências anteriores, inspiraram a conversão da fragilidade em virtude. Não há mais classes sociais! É o indivíduo livre que produz as mudanças. Não há mais necessidade de partidos políticos! São os movimentos sociais os protagonistas de suas pautas específicas. Não há mais necessidade de um programa que unifique as lutas! É a parcialidade que as faz fortes.

Há um conteúdo de verdade no fato de que as lutas democráticas, pelos direitos apresentam um imenso potencial de questionar aspectos da ordem social vigente. O que dissemos anteriormente de que as lutas por liberdade foram deturpadas pelo capital, não significa que elas não tenham produzido novas contradições profundas. O racismo é utilizado pelo capitalismo para explorar mais ainda o trabalho dos negros, o machismo justifica até hoje a diferença salarial entre homens e mulheres, a homofobia relega aos homossexuais pobres o trabalho precário e a prostituição, o preconceito com a juventude justifica a superexploração do trabalho nos callcenters, Mc Donalds ou estágios sem direitos, a falácia da guerra às drogas justifica a guerra aos pobres… Enfim, se do lado de lá da luta de classes os capitalistas se aproveitam das incompletudes das lutas democráticas, como os anticapitalistas devem encarar esta situação?

O todo é irredutível às partes

Voltemos à primeira questão de matriz teórica. Se a totalidade concreta só pode ser compreendida como “um todo estruturado e dialético”, significa que o conjunto de fatos que compõem a luta de classes em sua singularidade não elimina a estrutura de classes da sociedade capitalista que não aparece à primeira vista, pois o trabalho é alienado. Além disso, o motor do movimento da realidade é a contradição. Qualquer salto de qualidade que se identifique do singular ao mais universal, também deve corresponder a um salto de conhecimento de uma abstração mais simples para uma mais complexa e, portanto mais concreta, já que a realidade é a “síntese de múltiplas determinações” que não se apresentam na aparência, ou seja, precisam ser descobertas.

Da mesma forma os movimentos sociais devem buscar em um programa a condensação de suas pautas específicas. Enquanto vivermos em uma sociedade capitalista, invariavelmente, a contradição entre capital e trabalho será a decisiva. Isto anula as lutas específicas? De maneira nenhuma! Pelo contrário, elas se fortalecem mutuamente. Buscar o ponto de vista da totalidade concreta significa construir um escopo analítico e político que permita compreender o todo e a parte sem que sejam necessariamente contraditórios. A crise capitalista que se iniciou em 2008 acelera as contradições econômicas do capitalismo e demonstra que a luta política anticapitalista é tão irredutível aos movimentos sociais, quanto o todo é irredutível às partes. A melhor forma de compreender a realidade é lutar conscientemente para que ela mude.

Bernardo Corrêa é sociólogo.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017