Crise da água: uma questão também de saúde

Natália Peccin 12/jun/2015, 01h06

Enfrentamos no momento atual uma grave crise de abastecimento hídrico, sobretudo do sistema Cantareira em São Paulo, resultado de um projeto de gestão que coloca a água a serviço do mercado e de interesses políticos e ignora a importância do saneamento para a saúde pública. Sendo a água um direito humano fundamental, sua escassez é de grande impacto na vida das pessoas, e, assim, nas suas condições de saúde e doença.

Muito para além da questão climática, a essência da chamada crise da água é de ordem política, centrada no desmonte da Sabesp como empresa pública ao longo das gestões tucanas e na total falta de planejamento e investimento no sistema para atender as reais necessidades da população, como na infraestrutura das tubulações, em que boa parte da água é perdida.

Em meio a crise, as propostas de saída apresentadas são ainda mais desastrosas, passando por meses de negligência e irresponsabilidade do governo em negar a gravidade do problema e não implementar um rodízio no abastecimento, até sua absoluta desonestidade em executar esse racionamento de forma velada nos bairros da periferia. Oficialmente, a política se baseia em bônus para as famílias que reduzirem o consumo de água e multas para aquelas que o aumentarem, somado a um grande investimento publicitário que visa a suposta mudança de hábitos individuais para economia de água como solução do problema.

Mais uma vez, o que se vê é a tentativa de responsabilização da população para justificar a ausência ou ineficiência do Estado no cumprimento das políticas públicas, o que se manifesta claramente na culpabilização do indivíduo por seu estado de saúde. No caso da água, a responsabilidade transferida à população é de não só garantir a plenitude do recurso como também seu armazenamento adequado.

A ligação da água com possíveis enfermidades é clara quando se pensa em patologias de veiculação hídrica, sejam elas transmitidas por agentes biológicos de contato direto, como a cólera, ou por vetores que utilizam a água em seu ciclo biológico, como no caso da dengue. Entretanto, o que não se mostra tão claramente é a relação do acesso ao abastecimento e armazenamento de água e ao sistema de esgoto aos perfis de saúde-doença dos indivíduos e grupos sociais.

Essa relação é melhor compreendida quando olhamos para a inserção social das pessoas e a forma como elas ocupam o território, já que assim podemos observar suas formas de viver e trabalhar e a presença de instituições socais e serviços públicos e privados e de mobilização popular. Isso significa dizer que o impacto da crise da água, seja pelo não abastecimento, pela piora de sua qualidade, ou pela dificuldade de armazenamento adequado, é heterogêneo na população e tem perfis específicos de expressão nos grupos sociais.

Em meio a epidemia de dengue que vivemos é preocupante pensar que a crise de abastecimento hídrico gera uma maior necessidade de armazenar água, e que isso pode, muitas vezes, ser realizado de forma inadequada, propiciando condições de desenvolvimento do mosquito vetor da doença. Entretanto, devemos considerar que a parcela mais abastada da população, em sua maioria, possui caixas d’água, enquanto que isso não ocorre para outros grupos sociais. Assim, há uma diferença de conformação do perfil saúde-doença, que é determinado socialmente. Acrescenta- se ainda a isto o fato de que é justamente nos bairros periféricos, atingindo, portanto, a população mais pobre e marginalizada, que se faz constante o racionamento de água, de forma extraoficial.

E questão da água se manifesta não só na ausência de abastecimento como também na preocupação com sua potabilidade, que é colocada em dúvida a partir da utilização de fontes como o “volume morto” do sistema Cantareira ou até mesmo a represa Billings. Além disso, devemos lembrar que o esgotamento também se faz pelo abastecimento de água, e, portanto, sua ausência compromete também o sistema de coleta de dejetos.

O impacto na vida das pessoas é ainda mais amplo se considerarmos que todos os serviços e setores de políticas públicas são afetados pela crise de abastecimento hídrico, e, portanto, as condições de trabalho, lazer, educação, entre outras, são comprometidas; escolas e universidades públicas suspenderão suas aulas, e já vimos amostras dessa caótica situação no fechamento de alguns bandejões da USP, por exemplo, por falta d’água há algumas semanas. E, da mesma forma, esse impacto se apresenta heterogeneamente dentre os grupos sociais, de acordo com o acesso a esses serviços e sua presença no território que ocupam.

Entretanto, é também nesses territórios que se criam formas de atendimento as necessidades das pessoas por meio da mobilização social. Itu se tornou um dos maiores exemplos de cidades afetadas gravemente pela crise da água, sendo que algumas pessoas chegaram a ficar 60 dias sem abastecimento; mas Itu se coloca também como modelo de mobilização e luta popular, protagonizando movimentos, como a Assembleia Estadual da água, que pretendem caracterizar a política de recursos hídricos como uma questão de saúde e responsabilizar quem de fato deu origem a essa situação, no reestabelecimento da Sabesp como empresa pública e na implementação de medidas realmente eficientes de superação da crise, sem permitir, principalmente, que a população mais pobre pague mais caro por isso.

Natália Peccin, estudante de enfermagem e militante do movimento Juntos!

Texto publicado originalmente no jornal O Bisturi, dos estudantes de Medicina da USP

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017