O amor é revolucionário, com ou sem perfume!

Lucci Laporta 12/jun/2015, 17h16

Hoje é dia dos namorados e das namoradas. Dia de comemorar todas as formas de amor e evidenciar seu caráter revolucionário. Mas como tudo numa sociedade marcada pelo incentivo ao consumo, também é o dia de várias pessoas trocarem presentes. E por isso, é comum que várias empresas, desde semanas atrás, tentem nos convencer a comprar seus produtos. E este ano se repetiu esse mesmo fenômeno. Tudo estava dentro do que é considerado normal… Tirando uma campanha virtual de boicote orquestrada por fundamentalistas religiosos contra uma determinada empresa, O Boticário.E o motivo foi simples: a propaganda dessa empresa contemplou uma realidade que nossa sociedade hipócrita procura esconder – a existência de casais homoafetivos.

Ora, assim como foi progressivo que as novelas começassem a retratar a afetividade entre casais formados por pessoas de mesmo gênero, não se pode negar que é, sim, progressivo que peças publicitárias, ainda que tenham o objetivo de gerar mais lucro, comecem a retratar de forma natural as orientações sexuais divergentes da heteronormatividade.E tudo que é progressivo está passível de desencadear uma reação conservadora, como ocorreu com a propaganda d’O Boticário. Assista aqui:

É preciso afirmar sempre, também, o caráter antidemocrático e opressor do fundamentalismo, mas, nesse caso, sem esquecer que vivemos numa sociedade de classes. Classes antagônicas, que para sobreviverem precisam lutar uma contra a outra (uma por dignidade, outra pela manutenção de seus privilégios). Sendo assim, mesmo que seja progressivo que empresas contemplem a questão LGBT, o objetivo dessas empresas é diferente do objetivo do movimento de trabalhadoras e trabalhadores LGBT: enquanto as primeiras buscam abarcar um setor do mercado que ainda não tem sob controle, o segundo busca garantia de direitos.

As empresas sempre nos tratarão como consumidoras/es. O movimento deverá buscar nosso reconhecimento como seres humanas/os. É por isso que só o movimento social LGBT poderá – mesmo que ainda não o faça – abraçar em sua luta aquelas e aqueles que nunca terão acesso ao consumo e que não fazem parte do estereótipo hegemônico e valorizado pela sociedade capitalista.

Aliás, como de costume, o casal retratado na propaganda foi o padrão de “casal gay de respeito”: branco, de estereótipo masculino, rico etc. A burguesia pode sim cumprir alguns papéis progressivos na luta contra a opressão, afinal existem negras, negros, LGBT e mulheres burguesas. As mulheres burguesas tiveram papel importante na luta pelo sufrágio universal, por exemplo. No entanto, a burguesia sempre demonstrará qual o seu verdadeiro lado no momento de superexplorar mulheres, negras e negros e LGBT, relegando estes grupos sociais aos piores postos de trabalho e aos piores salários. Não nos iludamos. Somos muito mais que consumidoras/es.

É por isso que, guardado o reconhecimento da importância limitada da propaganda de perfumes, não farei propaganda para esta empresa, nem para a Coca Cola, o Google, o Facebook etc. Não estamos do mesmo lado. Não temos o mesmo objetivo nas pautas de direitos humanos. A nossa luta e o nosso afeto, que são revolucionários, foram o verdadeiro alvo do boicote fundamentalista. Portanto, à nossa luta é que deve se voltar a nossa reverência.

lucci

 

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