Por que não são criados anticoncepcionais menos agressivos à saúde da mulher?

Karina Brandt Vianna 14/jun/2015, 17h28

ANSM (decidiu tirar o medicamento de circulação na França

Um artigo¹ publicado pela conceituada revista médica britânica The BMJ há algumas semanas trouxe uma importante informação a respeito das pílulas anticoncepcionais e seus efeitos colaterais: as pílulas anticoncepcionais modernas, que possuem em sua formulação os hormônios drospirenona, desogestrel, gestodeno e ciproterona, têm um risco de 1,5 a 1,8x superior de desenvolvimento de trombose venosa e arterial em relação aos contraceptivos orais formulados e fabricados antigamente, que continham hormônios sintéticos diferentes (levonorgestrel, noretisterona ou norgestimata), apesar da diminuição progressiva da carga hormonal. Essas informações casam com os resultados de um estudo dinamarquês publicado em 2011, e um estudo abrangente do sistema de saúde francês, que havia apresentado uma duplicação do risco de embolia pulmonar (consequência mais grave da formação de um coágulo) em usuárias das pílulas de nova geração.

Por que RAIOS a indústria farmacêutica foi na contra mão da redução de riscos desses medicamentos? Por que não são criados métodos menos agressivos e mais eficazes se o consumo da pílula anticoncepcional feminina é tão alto? Estamos falando da saúde de milhões de mulheres! É impossível conceber a saúde da mulher de forma desvinculada de seu papel dentro da sociedade.

A atenção à saúde da mulher, na história das políticas de saúde no Brasil e no mundo, tem sido reduzida, em grande parte, a parâmetros da atenção materno-infantil e, mesmo assim, constantemente, relegada a segundo plano, pois somos vistas apenas como seres para fins reprodutivos. As milhões de mulheres que escolheram não serem mães ao consumir as pílulas, e as muitas outras que não tiveram acesso ou escolheram outro método de contracepção, devem ter o direito e a autonomia para decidir se querem ou não ter filhos e quantos, com a garantia de terem sua saúde assegurada.

A introdução das pílulas anticoncepcionais como uma alternativa a partir da década de 60 com a Enovid-10 nos Estados Unidos foi histórica porque ofereceu uma alternativa de contracepção importante à mulher. Porém, ainda precisamos avançar. São ainda as mulheres que assumem essa responsabilidade, comprometendo sua saúde, enquanto a participação masculina na contracepção é apenas como mero apoiador. Além disso, não há debate e educação sexual nas escolas e Universidades, algo essencial para uma sociedade que se preocupa com os direitos sexuais e reprodutivos.

Há um enorme interesse mercadológico sobre as pílulas anticoncepcionais e sobre seus impactos na saúde das mulheres consumidoras. As pílulas anticoncepcionais têm movimentado os lucros das indústrias farmacêuticas de modo crescente. Apesar de possuir um público restrito basicamente a mulheres, as vendas são altas, pois não é necessário estar doente para consumí-la, basta não querer engravidar. Existe ainda um apelo para seu consumo para redução da quantidade de espinhas, cólicas, regulação do ciclo menstrual e redução do volume de sangue menstruado.

O setor de farmacovigilância, responsável por acompanhar o desempenho dos medicamentos que já estão no mercado, reunindo as informações a respeito dos efeitos colaterais em consumidores e intervindo para a proteção dos consumidores, não funciona de maneira adequada, devido aos interesses mercadológicos. Pelo contrário, as informações sobre os efeitos colaterais são sonegadas para proteger o lucro dos empresários e inclusive aumentá-lo, porque se um indivíduo adquire uma segunda doença a partir de um medicamento, ele provavelmente terá de consumir um novo medicamento, e assim por diante.

As feministas da segunda onda revolucionaram os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres com a conquista da pílula. Mas a indústria farmacêutica não encara nossas escolhas sobre nossa vida reprodutiva como algo que merece cuidados. Milhões de mulheres por todo o mundo continuem a falecer ou tem seu estado de saúde completamente abalado porque as empresas optam por fazer dos direitos sexuais e reprodutivos e dos métodos contraceptivos uma indústria altamente lucrativa, omitindo o impacto nocivo sobre a saúde das mulheres que seus produtos geram. Também não há políticas públicas em torno dos direitos reprodutivos, educação sexual por parte do governo. Além disso, o tema do aborto é um tabu, que leva à criminalização e mortes de mulheres. O direito a métodos contraceptivos saudáveis e seguros é parte fundamental da luta pela saúde e vida das mulheres. Enquanto o lucro for mais importante que a vida, enquanto o medicamento for uma mercadoria e não um direito a ser garantido gratuitamente a toda a população, é impossível haver uma política de promoção real do uso racional de medicamentos, luta histórica travada por vários farmacêuticos. Por isso, a luta pela saúde, não só das mulheres mas de todas as pessoas, também é uma luta por uma sociedade socialista, que não coloque o lucro acima dos direitos das pessoas.

LINKS: ¹ = Artigo BMJ: http://www.bmj.com/content/350/bmj.h2135

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