Cais para o povo: Porto Alegre não precisa de gentrificação!

Samuel Jachetti 31/jul/2015, 14h06

Gentrificação, mais conhecido como o processo de transformação de uma cidade ou de parte dela, onde um grupo de pessoas que ali reside ou trabalha dá lugar a um novo grupo de pessoas com maior poder aquisitivo. Este é um termo recente, mas pode muito bem ser comparado com os processos de higienização dos centros urbanos, onde a população pobre é obrigada a migrar para as periferias e deixar os espaços melhor localizados para as classes mais altas.

A gentrificação se dá por uma transformação urbana que pode ser de curto ou longo prazo. Ocorre quando alguns empreendimentos são criados ou requalificados para atender a um público que ainda não é maioria no local. Se for criado, por exemplo, um estádio de futebol e um complexo de condomínios residenciais de alto padrão ao lado de uma comunidade de papeleiros, como está ocorrendo na Arena do Grêmio, os comércios locais tendem a “aproveitar” o poder aquisitivo dos novos transeuntes para benefício próprio. Este aumento dos preços nas lojas, comércios e serviços, por sua vez, reduz o poder de compra da população originária e, aos poucos, esta vai buscando outros espaços onde seu dinheiro valha “o mesmo que antes”. Geralmente, os espaços buscados são nas periferias, que vão se distanciando cada vez mais do centro urbano da cidade. São formados, assim, anéis de crescimento urbano. Esse processo, infelizmente, também começa a ocorrer no Cais Mauá.

Desde 1970, a capital gaúcha virou as costas para um dos bens naturais mais preciosos que possui – foi neste ano que se finalizou a construção do Muro da Mauá, medida encontrada para se conter as enchentes do Guaíba após os incidentes de 1967 e, principalmente, de 1941. Nos últimos anos foram buscadas, então, diversas alternativas para tentar retomar a Porto Alegre as características de uma cidade ribeirinha.

As últimas propostas vêm ao encontro da política aplicada na cidade recentemente: recursos vindos dos cofres públicos para contratar empresas privadas para – adivinhem, só? – beneficiar as empresas privadas e não a população! Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, que passou por partidos como ARENA, PDT, PFL-DEM, recebeu R$ 2,1 milhões para projetar um trecho da Orla do Guaíba que, além de desconsiderar as questões ambientais, privilegiava o automóvel e exclui quem não tem dinheiro. A contratação de Lerner foi contestada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, já que foi escolhida por “notório saber”, não por concurso público, seguindo a legislação. Lerner queria fazer aqui, o que já fez em Curitiba: a gentrificação. A capital paranaense, onde o arquiteto citado já teve 3 mandatos como prefeito, é tida como a “cidade-modelo” do Brasil. Mas basta assistir ao documentário “Arquiteto da Violência” para saber o que fizeram os anos de chumbo de Lerner à Curitiba.

Em outubro de 2013, a seccional gaúcha do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) chamou uma Audiência Pública para a apresentação do projeto do Cais, que ainda não havia sido disponibilizado para o público. Ou seja, os porto-alegrenses estavam prestes a receber uma orla às escuras – nem o concurso, nem o projeto vieram a público. Após a audiência, pouco se falou sobre o assunto. Mas todos já esperavam que um shopping e comércio destinado à elite porto-alegrense seriam construídos no local.

Nova investida, em outra área da orla, mais uma vez visando a gentrificação da área central de Porto Alegre. A tal da “revitalização” do Cais Mauá é um complexo de contradições sem tamanho. Em suma, é fruto da política elitista do governo Melo/Fortunati: é o povo podendo retomar a orla, mas só se fizer compras no shopping.

O Juntos está nessa luta com os movimentos sociais e estará presente na Audiência Pública chamada pelo Cais Mauá de Todos, que acontecerá no próximo sábado (01/08), às 15 horas, na Praça Brigadeiro Sampaio. O Cais é de todos e a discussão e os rumos da cidade também devem ser.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017