Amor x Conservadorismo: a nova traição do PT

Sophia Tagliaferri de Castro 13/ago/2015, 14h50

As faixas estavam sendo colocadas e o clima ia ficando cada vez mais tenso dentro da Câmara Municipal de São Paulo. De um lado, cartazes com os dizeres “somos família sem gênero”, “mais qualidade, não ideologia”, “gênero não”. Do outro, os dos movimentos sociais: “gênero no PME sim!”, “respeito se aprende na escola”. Já era perceptível que as próximas 4 horas seriam de enfrentamento. A parede da sala da votação tinha Jesus crucificado e a cara dos vereadores mostrava o perfil daqueles que tem voz na nossa sociedade: só homem cis, hetero, branco, com raras exceções. Do lado de fora, outro enfrentamento, simbolizado por dois carros de som. Enquanto travestis, transexuais, lésbicas, bissexuais e gays subiam no carro de som pedindo amor, pedindo gênero no Plano Municipal de Educação, pedindo respeito, o carro ao lado destilava ódio às tais “minorias”.

Eram 11 inscritos que teriam direito de usar a palavra por até 30 minutos. Pouquíssimos ali defendiam “Gênero e Diversidade Sexual” como uma das diretrizes do Plano. Os mais conservadores diziam que isso destruiria a família e a educação familiar. Os fundamentalistas entravam em alvoroço, gritavam, aplaudiam. Cada discurso conservador era um discurso que não levava em conta as mortes e agressões machistas e/ou LGBTfóbicas. Cada discurso era um discurso que ia na contramão do que a manhã do dia 11 de agosto havia dito, quando, às oito horas da manhã, um ato com 2 mil secundaristas honrava o Dia Nacional do Estudante e mostrava que a melhor aula é na rua, com os estudantes organizados e preparados para lutar pelos seus direitos.

Na maioria dos discursos do PT, parecia que a sigla estava junto das e dos ativistas, defendendo o respeito e a educação para a diversidade sexual e de gênero no PME. Mas, no fim, eram só discursos bonitos para esconder o final da votação. O PT se dividiu: ou se absteve ou votou contra a discussão de gênero, revelando a hipocrisia e a traição. Houve silêncio dos dois lados da Câmara. Nem os mais religiosos acreditavam no que estavam vendo; nós, do outro lado, ficamos chocadas.

Essa foi a melhor forma que o PT encontrou para barrar ou lutar contra uma suposta “onda conservadora”? “Se não pode com eles, junte-se a eles”? Só dois vereadores votaram a favor do gênero: Toninho Vespoli, do PSOL e Ricardo Young, do PPS. Quarenta e dois votaram contra. É importante citar que Toninho é católico, provando que não existe uma batalha de religiosos contra LGBTs, e sim uma batalha de fundamentalistas facínoras contra LGBTs. Toninho é um daqueles que entende o recado verdadeiro de sua religião, que alguns ditos fiéis não conseguem entender: respeitar e amar o próximo como a si mesmo.

42 votos a favor da exclusão das questões de gênero nas escolas. São Paulo.

42 votos a favor da exclusão das questões de gênero nas escolas no PME de São Paulo. Apenas dois contrários.

É claro que não foi só o PT que votou contra a educação para a diversidade. PSDB e PP, entre outros partidos reacionários também o fizeram, mas só um partido traiu todas e todos aqueles que estavam ali gritando contra as mortes. Só um partido prometeu e fez atividades pelo gênero no PME e, no final desse dia cheio de luta e esperança, acabou cedendo mais uma vez ao conservadorismo. Cedeu à tal governabilidade. Tentou justificar com uma suposta manobra, uma tática diferente, mas não há como entender um partido que nas campanhas eleitorais pede apoio e promete defender os movimentos sociais e as “minorias” e, no fim, acaba sujando-se de vermelho. Infelizmente, não do clássico vermelho da estrela ou da cor histórica da esquerda, mas o vermelho do sangue de tantas e tantos LGBTTs que resistem para conseguir existir nessa sociedade hipócrita, na qual quem diz representar Jesus clama por ódio e o Partido dos Trabalhadores representa o que há de mais reacionário e burguês.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017