“Estou sendo processada por Alexandre Frota”

Sâmia BomfimJuntas 04/ago/2015, 13h03

Originalmente publicado no blog “Escreva Lola Escreva” (04/08/2015)

Conheci Sâmia Bomfim dois anos atrás, num debate na USP. E fico chocada que um dos tipos mais repulsivos do Brasil queira processá-la — ainda mais quando quem cometeu um crime foi ele, não ela.

Este caso me lembra bastante quando, em 2011, eu critiquei o CQC por uma reportagem horrível que fizeram contra a amamentação em público, e recebi email do Marcelo Tas dizendo que iria me processar. Eu pus a boca no trombone, quase todos ficaram contra ele, e ele desistiu do processo.

É fundamental agora que todas sejamos Sâmia Bomfim. Passo a palavra a ela:

Estou sendo processada por Alexandre Frota.

Em março, estava circulando pela internet o quadro do programa Agora é tarde da Band do “humorista” e apresentador Rafinha Bastos em que Alexandre Frota narrava que havia estuprado uma mãe de santo. O vídeo é repugnante. Frota narra detalhes da cena de estupro, supostamente engraçada. Para completar, Rafinha Bastos pede para a plateia aplaudir. “Uma salva de palmas para essa história maravilhosa”.

Eis a descrição da fala de Alexandre Frota:

“Eu fui pro quarto e sentei, fiquei sentado. A mãe de santo chegou pra mim e falou: ‘Você está carregado, não tem luz própria, eu vou ter que fazer uma limpeza em você’. Aí ela virou, malandro. Eu fiquei olhando assim, cara, e falei: ‘Meu irmão, essa mãe de santo tem um jogo, dá pra pegar, dá pra comer, morô?’. Aí pensei: como é que eu vou falar pra mãe de santo que queria comer ela; de repente eu falo ‘quero te comer’ e mãe de santo pode fazer mal pra mim, pode chegar e me vuduzar de um jeito que… eu saio da Globo.

Mas eu falei: eu vou comer, porque ela é boa. Estava vendo pelas canelas dela (…) Aí fiquei olhando aquele bundão e falei: vou comer, vou pegar. Aí falei pra ela: ‘Eu não acredito nessas paradas que você faz, mas queria te dar um pega. E aí, tem jogo?’. Ela não falou nada. Aí eu virei e botei a mãe de santo de quatro (…) levantei a saia dela e agarrei pela nuca. Botei o boneco pra fora e comecei a sapecar a mãe de santo. Aí estou pegando a mãe de santo e minhas amigas bateram na porta. ‘Alexandre, tá tudo bem aí?’. Eu falei: tá, tá tudo bem. Aí eu fui mandando, fui mandando, e as mulheres batendo na porta.

Brother, eu tava a fim de gozar, e aí eu fiz tanta pressão na nuca da mulher que ela dormiu, ela apagou igual no ultimate, ela finalizou. Aí eu parei e falei: ‘Levanta aí! Ô mãe! Ô filha da puta, levanta aí!’. E ela apagou. Aí eu fui lá, abri a porta, as amigas entraram e perguntaram dela. Eu falei: ‘Num sei, ela ficou aí nessa posição já há algum tempo, e não fala nada. Acho que ela teve um troço. Recebeu… está apagada’. Elas perguntaram: ‘Como ela apagou?’. E eu: ‘Eu juro que não sei’.”

Vários veículos de comunicação repercutiram o vídeo questionando seu conteúdo, diante da indignação que causou entre internautas e o público do programa. Muitas campanhas online foram criadas, como páginas de denúncia e abaixo-assinados.

Uma dessas iniciativas foi o evento que criei, intitulado: “Mutirão para levar Alexandre Frota para o camburão. Estupro é crime!”, que rapidamente se viralizou. Além disso, foram feitas várias denúncias ao Ministério Público para que Frota e a Band fossem investigados por apologia ao estupro.

Para a minha surpresa, alguns dias depois de criado o evento, Alexandre Frota me procurou através de seu perfil do Facebook para me intimidar e ameaçar. A princípio, eu achava que fosse um perfil fake, pois não conseguia entender como uma “celebridade” poderia ter uma atitude tão lamentável, de procurar uma feminista na internet para ameaçá-la. Mas era ele mesmo. Claro que não era a primeira vez que eu ouvia ofensas pela internet, mas nunca havia sido ameaçada dessa forma.

Não achei que essa história fosse adiante. Porém, na última semana, chegou uma notificação policial para que eu comparecesse à delegacia prestar depoimento a respeito de uma denúncia por calúnia e difamação. Conversando com o escrivão, soube que se tratava de um processo movido pelo Frota. A etapa da delegacia foi apenas o começo. Em breve, o processo deve chegar ao Tribunal, e cabe ao promotor julgar a legitimidade da denúncia.

 

Este caso mostra o quanto o feminismo nas redes está vivo e forte. Recebi muitos apoios de conhecidos e desconhecidos, ativistas, coletivos, grupos, feministas, militantes. Várias pessoas oferecendo ajuda e se sentindo parte da luta. Estou realmente muito agradecida, queria que fosse possível expressar isso à altura. Acho que tanto apoio revela que de fato a questão não é individual. Todas nós, feministas, somos guerreiras, lutamos e nos defendemos coletivamente.

Este caso também demonstra o quanto ainda é preciso lutar para conseguir garantir o mínimo no que diz respeito aos direitos das mulheres. Há uma forte naturalização da violência contra a mulher. A mídia de maneira geral incentiva e lucra com a cultura do estupro.

Eu não devia estar sendo processada. Quem tem que ser investigado é quem vai em rede nacional dizer uma barbaridade dessas! Na verdade, eu não devia nem ter precisado criar este evento. Luto por um mundo em que pedir a punição de homens que estupram ou fazem apologia ao estupro não seja motivo de questionamento.

Por último, queria dizer para que nenhuma feminista tenha medo. Muitas de nós usamos as redes sociais para expor nossas opiniões e estamos de alguma forma sujeitas à perseguições e ameaças. Infelizmente isso é comum. Mas tenho certeza de que isso é uma reação ao crescimento e amplitude que o feminismo vem tomando, especialmente nas redes e entre a juventude. Eles têm medo, pois estamos crescendo, questionando, tomando as ruas e exigindo nossos direitos. Não podemos permitir que ameaças se tornem rotina, tampouco que nossas opiniões e campanhas virtuais sejam criminalizadas. Vamos vencer.

Leia também: A piada de Alexandre Frota é ele mesmo, por VulvaRevolução.

E assine a petição em defesa da Sâmia. Somos todxs Sâmia Bomfim!

O Juntas também criou um post no site Medium para quem quiser melhor entender o caso.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017