O Processo de Embranquecimento Social e a Luta pela identidade

Cilas Machado 24/ago/2015, 10h00

A história do mundo é uma história de exploração e de privação da identidade de quem se é. O povo negro e o povo indígena, sobretudo na história do nosso país, são os povos que mais sofreram e mais sofrem o processo bárbaro da violência simbólica que a negação da sua identidade étnica, de cor e de classe podem ocasionar na sociabilidade e moralidade da nossa sociedade.

O povo indígena na sua constituição enquanto povo originário do Brasil tem todo um arcabouço histórico que o tenta negar-lhe de modo impositivo a própria história, deslegitimando-os da concretude da origem e de povo primeiro brasileiro no afinco da transformação dos colonizadores em “descobridores”, “heróis”, ou aqueles que fizeram o procedimento de “salvação” e “atualização histórica”. Esse arcabouço que se manifesta tanto teoricamente quanto na realidade de fato, atém-se na desconstituição em vida da própria história cultural e humana que demarcam quem, de fato, são estes povos ou é, especificamente, este povo Brasil. O que acontece que em grande parte da negação da história de fato ou de múltiplos relatos desta, há um processo de segregação bibliográfica e fragmentação histórica que se manifestam numa violência simbólica expressa dura e intrinsecamente na negação do que constitui o ser índio nas suas tradições, na sua dignidade, na sua humanidade.

O ensino, o conhecimento e o que nos é colocado na escola é fruto do reduto colonizador preconizado pela segregação bibliográfica que não nos faz entender ambos os lados e majoritariamente nos mostra apenas uma versão, a versão do colonizador. Assim, o povo originário sofre com esta fragmentação histórica que coloca o homem branco, numa espécie de brancocentrismo, pelo qual, em quase todos períodos da história o perfil do colonizador é passado e reproduzido como em prol do progresso da humanidade.

Toda essa construção em volta egocentricamente do homem branco faz com que o protagonismo da identidade daqueles que foram barbaramente colonizados e violentados na sua identidade cultural, na sua identidade social, na sua identidade de ser e estar; sofram um processo de descaracterização simbólica do que os faz ser quem são. E a sociabilidade e a moralidade tornam-se, na atualidade, tão veladas que o procedimento de destruição da identidade dos povos aparece como uma suposta “normalidade” ou “naturalidade” com o mito da democracia racial seja com argumento do processo de “progresso humanitário”, ou que as “diferenças foram superadas entre os povos” e da própria “miscigenação”. Às avessas disso, intrinsecamente, a descaracterização simbólica de um povo é um processo de violência estética que se reproduz simbolicamente, sustentando-se na falta de informação, na higienização social, no não respeito à cultura local, no desrespeito à dignidade humana e aos saberes que existiram, existe e existirão na diversidade e na pluralidade da história dos povos.

Esse processo de segregação, de divisão étnica, de cor e de classe faz com que, na história, o povo negro também tenha um papel de vítima dessa sociedade que privilegia uns em detrimento da agonia de outros. E esse papel na nossa sociedade fez com que na história do nosso país, de 1500 até aqui, nós tivéssemos, praticamente, toda a história de escravidão, de privação dos direitos humanos e da própria humanidade de se postular como ser realmente carece. Trazendo assim o processo de sub-humanidade, sub-cidadania, sub-qualquer-coisa, que marginaliza o imaginário social na transformação destes povos em “não-gente”, numa classe de gente que “não é”, que “não tem”, que “não há”, que “não nada”… numa classe negra de cor por sua condição humana e negra de sentido no discurso pelo qual o colonizador lhe devastou.

O embranquecimento social e o brancocentrismo cultural manifestam-se na nossa realidade relembrando a história racista passada na reprodução das desigualdades do hoje. Quando olhamos nossa sociedade nos deparamos com sua estratificação seletiva (ou favelização pontual). Nos deparamos com as pessoas que estão à margem e que são, de fato, produtos desta realidade sócio-histórica que construiu e ainda se reproduz na negação da identidade dos seres não brancos. E esse fato na sua constituição representa o processo de embranquecimento social, pelo qual a negação do ser e sua expurgação enquanto um “outro” que “não-é” se eriçam na descaracterização de todo traço cultural e social que vem junto da etnia, da cor e da vivência dos povos, resultando na perda da identidade social, humana e na própria apropriação cultural.

O processo de destituição da identidade não é um processo de democracia racial, tampouco fruto da característica da miscigenação, porque os povos se misturam e se transformam, mas também se manifestam dentro de suas culturas que os constituem. Sendo assim, a destituição da identidade é um processo de violência velada, que se perpetua nas escondidas do imaginário social e se é representado na vida factível como uma repressão que aparentemente “não é nada”, mas que nos molda na caracterização de quem somos enquanto traço humano na nossa diversidade e pluralidade, como os seres de cabelos “ruins” e não de cabelos diferentes do padrão alisado do impositivo social da “branquitude”. Como pessoas que representam religiões que fazem pacto com Você-sabe-quem, do que as que participam de religiões contra hegemônicas. Com a linguagem e sua naturalização usual de características de raça e cor com significados ruins aproximados a negritude.

O processo de embranquecimento social é mais do que um artifício de destruição daquilo que nos faz quem somos na nossa constituição histórica de sermos negros e de tudo que é envolvido e sofrido pela população de não brancos, pois é também o reduto pelo qual, nos meios atuais e factíveis, o colonizador nos chicoteia (secretamente) e mantém sua dominação no alastro do status quo. Assim, a descaracterização do negro na sua própria condição de ser é um aparato colonial e escravocrata que serve ao mantimento do estado das coisas, impedindo com isso o fortalecimento de reconhecimento próprio da origem e da história que nos marcam como seres, bem como a organização para atuação e o questionamento da realidade. Sofremos então a continuação da coisificação, da perda do sentido humano pela abordagem do sentido animal e utilitário, de forma tal que a abolição nos é fictícia, pois é certo que não estamos mais na casa grande e senzala, mas estamos nas favelas servindo a burguesia da zona nobre das cidades. É certo que não estamos mais debaixo dos chicotes e dos troncos que demarcaram nossa pele, mas ainda temos a repressão do “novo” capitão do mato que se aparelha no imaginário estatal e policial. É certo que também não trabalhamos mais simplesmente ao lucro do senhor, mas estamos engolfados no lucro do patrão e imersos na sociedade de consumo que, de modo não aparente, nos consome tanto quanto antes.

A quem serve a não identidade? A quem serve o não reconhecimento de quem se é? – são perguntas que devemos fazer quando nos deparamos com o pano de chão e a vassoura em mãos e não nos sentimos integrados no ambiente acadêmico usufruindo da estrutura que nosso próprio povo construiu. A quem serve a atual forma da organização social se é senão àqueles próprios que nos tinham enquanto animais e hoje nos têm enquanto proletários de uma classe de gente que ainda é característica do expurgo do sistema. A quem serve o nosso sentido de ser enquanto o nosso estar é degradado… A quem serve o nosso estado enquanto o nosso eu é ainda colonizado…

O embranquecimento social não é uma escolha da(o) negra(o) que quer cabelo liso porque realmente gosta deste modo estético, mas sim um processo que se mantém na imposição das características do brancocentrismo e que se reproduz em violência estética mantida e reproduzida pelo sistema capitalista de organização social, pelo qual não faz medidas de rupturas das correntes do sistema escravocrata, apenas nos integra seletivamente a uma comunidade de consumo que reproduz o sistema análogo ao anterior. Ou seja, é uma violência simbólica que nega a humanidade do outro por sua diversidade de ser, o que é muito mais íntimo, profundo e cruel na identidade que nos constitui enquanto seres históricos e sociais da nossa realidade que nos é privada de nós mesmos. Bem como enfatiza que o suposto fim da abolição é uma farsa que perpetua a desigualdade do povo não branco, nos dizendo e evidenciando dia após dia: que esta sociedade nunca foi nossa – mas que no futuro há de ser, pois só a luta muda à vida!

As mãos brancas tiram-me a própria essência e existência de ser quem sou.

A suposta repressão que não aparece, mata.

A suposta repressão que não é nada, marginaliza.

*Cilas Machado é militante do Juntos! Negros e Negras RS.