Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa pra Quem?

Marcela Lisboa 24/ago/2015, 21h43

“Arrastão da PM impede jovens de ir a praia” é o que diz a capa do Jornal Extra nesta segunda. Estes jovens, negros e periféricos, são mesmos que lotam o Degase, as ruas e que serão massacrados pela redução da maioridade penal. Eles são meninos assassinados na Candelária, no Cabula e em Osasco. Eles são, mais uma vez, o povo preto.

Cerca de 15 adolescentes foram retirados de um ônibus que ia da zona norte à zona sul do Rio em busca de diversão. Destes, 14 eram negros. Quase todos munidos de documentos. Imagino um ônibus descrito por Racionais, em que as pessoas olhavam pra trás, curiosos, é lógico. Acreditando estar em um zoológico.

Uma conselheira tutelar que preferiu não se identificar disse que a prática é recorrente. Só neste fim de semana foram recolhidos cerca de 150 adolescentes. Antes, apenas as pessoas sem documento e dinheiro para a passagem tinham seu percurso interrompido. Hoje, o artigo 230 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que proíbe “privar a criança ou o adolescente de sua liberdade, procedendo à sua apreensão sem estar em flagrante de ato infracional ou inexistindo ordem escrita da autoridade judiciária competente” é ignorado pelas autoridades.

Nenhuma novidade para os que estão acostumados a conhecer o Estado apenas deste modo. A ditadura, para nós, nunca acabou. Desde a ocupação do exército na Maré à redução da maioridade penal, há um plano para manter a juventude negra distante dos milhões de olhos que visam o Rio de Janeiro como a cidade maravilhosa, sede das Olimpíadas de 2016.

A mesma cidade que tem Amarildo, Eduardo, DG e Cláudia como símbolos. E cujas vítimas da violência e da segregação são sempre pobres e negros. O Rio de Janeiro que a juventude da periferia conhece é o que o invisibiliza, criminaliza e mata. O mesmo que corta verba da educação, reprime morador de favela e estampa capas de revistas ao redor do mundo.

Esta grande favela com uma ilha chamada zona sul é um pequeno mundo restrito a uma juventude que não seja branca e classe média. Afinal, a garota de ipanema não pode vir do Jacaré.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017