29 de Agosto e a Luta Para Além da Visibilidade Lésbica e Bissexual

Caroline Coelho Vilar 29/ago/2015, 17h55

Ser mulher homoafetiva no país que concentra mais de 40% das mortes por homofobia de todo planeta e que é sétimo colocado em feminicídio não é tarefa fácil. Ser mulher homoafetiva num país que estimula a cultura do estupro, da hipersexualização do corpo feminino, que perpetua o machismo na mídia, que não investe em políticas públicas para mulheres (tampouco para mulheres lésbicas e bissexuais) beira o insuportável. E foi impulsionado por essa realidade que se criou há 19 anos, desde o I Seminário de Nacional de Lésbicas, o dia 29 de Agosto; o Dia Nacional de Visibilidade Lésbica e Bissexual*.

A partir do momento em que nascemos, nós, mulheres, recebemos o manual de como viver – ou sobreviver em silêncio a tudo o que nos é imposto diariamente. E a cada página rasgada desse manual, o caminho se torna ainda mais dificultoso. Somos chamadas de promíscuas, mesmo estando sob uma sociedade que cotidianamente nos violenta. Sexual, psicológica, física e verbalmente… E que nos taxa de imorais. Nossos corpos são utilizados como laboratório de homens que acreditam precisarmos de “favores” para nos encaixarmos no estereótipo de mulher ideal (e continuar a ler o tal manual). Somos estupradas e mortas, pois a normatização do fetiche sobre nossa forma de amar e sobre nossos corpos é tamanha que, quando este desejo não é “correspondido”, há a necessidade da “purificação”. Não atoa o número de “estupros corretivos” é crescente e as mortes em decorrência do mesmo idem.

O dia 29/08 é mais um dia de luta para nós, mulheres lésbicas e bissexuais, sermos ouvidas, vistas e respeitadas. É mais um dia que nós sobrevivemos e resistimos a essa sociedade que nos segrega na marginalidade. É mais um dia em que devemos cobrar de nossos representantes a necessidade de assumir e se responsabilizar pelas mortes, assédios, estupros e da invisibilidade que nos silencia e desmerece a nossa luta diária. É dia de exigir políticas públicas específicas para nossa segurança e bem-estar social!

É necessário lutar para muito além do direito de amar. Em tempos atuais, devemos exigir mais do que somente sermos toleradas enquanto o machismo e a lesbofobia se perpetuam como parte de nossa cultura. Não devemos nos contentar com paradas LGBT e tampouco lutar apenas pela criminalização da homofobia. Necessitamos lutar contra todas as políticas que precarizam as nossas vidas, que impedem a nossa luta de avançar. Não podemos permitir que nossos direitos sejam negociáveis, como faz o governo Dilma, com suas alianças com fundamentalistas! Enquanto continuamos sendo mortas, Felicianos e Bolsonaros permanecem disseminando ódio, propondo até mesmo CURA GAY. E são estes os mesmos que pressionaram Dilma a vetar o kit “Escola Sem Homofobia” e continuam pressionando o governo, que cede, para nos freiar.

Não nos freiarão! Seguiremos nadando contra a maré em meio a uma onda de ataques aos direitos da classe trabalhadora, cortes nas áreas sociais, educação e na saúde; a um governo que prefere manter seus acordos à se dispor a investir em políticas públicas de combate à violência doméstica ou a LGBTfobia. Nós, mulheres, que sentimos muito mais o aumento do desemprego, que ocupamos os subempregos, que não temos equiparação salarial aos homens, que teremos nossa permanência nas universidades ainda mais conflituosas com 9bi a menos na educação. E nós, mulheres lésbicas e bissexuais, sentimos ainda mais todo esse descaso, uma vez que somos marginalizadas, segredadas e temos um Estado que sequer reconhece nossa existência.

Necessitamos de organização para além. A conjuntura de crise, ajustes fiscais e medidas de austeridade não permitirá a abertura para pautas democráticas. Enquanto Eduardo Cunha se mantiver onde está, ao lado da bancada fundamentalista, evangélica e conservadora, se afundando em denúncias de corrupção e discursos LGBTfóbicos e machistas, não teremos nossas pautas valorizadas e vitoriosas.

Lutemos então, juntas, contra esse cenário e esses atores que nos desqualificam e permanecem a nos invisibilizar. Lutemos não somente hoje, mas diariamente, por visibilidade, respeito e pelo direito pleno de viver como desejarmos. Por políticas públicas específicas. Por uma educação de qualidade, por gênero no PNE, reconhecimento e representatividade! Contra o machismo e contra a LGBTfobia. Pelo fim dos “manuais” e gritemos aos maiores inimigos da democracia:

FORA CUNHA, FORA FELICIANO, FORA BOLSONARO, FORA FUNDAMENTALISTAS, FORA CONSERVADORES!

 

Caroline Coelho Vilar

Estudante de Engenharia Sanitária e Ambiental

Militante do Juntas e Diretora de Mulheres do DCE – UFPA

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017