Até quando o silêncio sobre a Operação Zelotes?

Lucas Pitta Klein 17/set/2015, 16h00

Qual o assunto mais presente no cotidiano gaúcho além das temperaturas incômodas? A crise do estado, caos na segurança pública, aumento exponencial no número de homicídios, parcelamento de salários – entre os quais estão 60% dos professores estaduais -, fechamento de secretarias (como a da mulher) e fundações (como a zoobotânica), demissões em massa (como os 40 estagiários da TVE), greve geral com 35 mil trabalhadores na rua entre mais de 40 sindicatos e a retração do mercado. Para solucionar issio, o povo é responsabilizado por uma crise que não criou – tendo que pagar o aumento da tarifa de ônibus, o aumento da conta do super, o aumento da energia elétrica, o aumento de impostos como ICMS. Resultado de um desgoverno neoliberal aliado a uma mídia capaz de colocar a população em calamidade moral.

Mas que crise é essa? É de ordem estritamente econômica, ou atinge a política, a sociedade e inclusive a moral burguesa? Quem a causou? Quem deve pagar por ela? Ela custa tanto assim? A crise parece algo batido, dado, óbvio, amplamente sabido, algo que não cabe mais explicar. Se a mídia problematiza-se a crise, o povo não aceitaria mais a mesma como pretexto para todo e qualquer ajuste. Como se a crise não fosse resultado de um modelo de alta concentração de renda sempre com envolvimento dos agentes do capital financeiro, da burguesia, do imperialismo e dos governos que fazem o jogo dos poderosos.

Infelizmente, para a mídia mais interessa vender escândalos essencialmente políticos a escândalos que envolvem empresas, entre as quais as dos grupos midiáticos, como é o caso da Operação Zelotes. O fato é que o dinheiro investigado na Operação Lava Jato é imensamente menor que o investigado na Operação Zelotes. Se custa mais caro, porque a Zelotes, então não é o assunto do momento no Brasil? O primeiro envolve corrupção e propina em contratos da Petrobras, o segundo esquemas mafiosos de sonegação fiscal envolvendo 70 gigantes empresas, podendo chegar a um rombo de cerca de R$ 585 bilhões aos cofres públicos – dinheiro este que poderia estar sendo investido nas tão sonhadas: saúde, educação, segurança, moradia e, inclusive, para o pagamento dos salários dos servidores públicos.

Como funcionava o esquema de sonegação fiscal? Empresas de grande porte subornaram agentes da Receita Federal para que manipulassem julgamentos de processos administrativos e multas de empresas autuadas pela própria receita federal. Uma delas pagou R$ 15 milhões de propina para que um débito de R$ 150 milhões sumisse. Mas não tem apelidinho. Reportagem de 20 minutos no fantástico. Super gráficos. O procurador da Operação Zelotes é Frederico Paiva. São 23 pedidos de prisão diretamente negados, entre conselheiros e empresários, além do pedido de transparência e publicidade do inquérito, também negado. Sem apoio midiático e judiciário, Paiva investiga com sua pequena equipe milhares de contratos, 72 processos e mais de 2,5 mil e-mails, em uma operação que engatinha desde março, mas que leva em conta 10 anos de esquema mafioso (2005 a 2014).

Sem título (2)

Não apenas um motivo explica o silêncio da mídia. É sabido que a RBS, filial da Rede Globo no sul do Brasil, é investigada por sonegar R$ 671 milhões, sendo a sétima da lista. Nesta, encontramos os maiores bancos do país (Santander e Bradesco, no topo da lista com R$ 3,3bi, além de Boston, Safra, UBS e Brascan), empresa de comunicação (RBS), de Telefonia (Tim), gigantes da construção civil (Camargo Correa, Cimentos Penha, Via Dragados – de engenharia), Petroquímicas (Petrobrás, Copesul), grandes montadoras automotivas (Ford, Mitsubishi, Marcopolo), do setor Imobiliário (Coimex), Alimentício (Pandurata – das bolachas Bauducco -, Avipal, Copersucar), de bebidas (Itaipava, Café Irmãos Júlio), de tecnologia (Huawei). Até o PP – Partido da Propina – sonegou R$ 10 milhões. A Zelotes investiga quase R$ 600 bilhões sonegados de 72 empresas: trata-se da maior operação da república que visa colocar a alta burguesia no banco dos réus.

A Rede Globo, por sua ligação com a RBS, está em silêncio sobre a Operação Zelotes – isso é perceptivelmente claro além de lógico e esperado. Mas porque o restante da mídia também está? Não figuraria nisto a chance de bater na gigante de comunicação do país afim de conquistar seu espaço? Simples. São estas mesmas empresas que pagam milhões a cada trinta segundos de comercial nas grandes emissoras, sendo da família Marinho ou não. Estas mesmas empresas financiam as campanhas eleitorais dos políticos que depois governam fazendo ajuste fiscal na população num momento de aumento de lucro dos bancos (Santander é o primeiro da lista da Zelotes, com R$ 3,3 bilhões sonegados e lucro líquido superior a R$ 1 bilhão sendo este com crescimento de 32% no primeiro semestre de 2015), e não implementando uma reforma tributária ampla, a auditoria da dívida pública, a taxação das grandes fortunas e dos bancos privados. Mesmos governos estes, que insistem em adiar o debate sobre a democratização dos meios de comunicação – parecem satisfeitos com concessões de Rádio e TV serem renovadas de 15 em 15 anos sem debate popular enquanto TV’s comunitárias são perseguidas e fechadas. A RBS é uma emissora conhecida por estar fora da lei: além de ter se envolvido em CPI que investigou o fato de ela desviar milhões de dólares para empresas fantasma (RBS-PAR e CABOPARBS) nas Ilhas Cayman para não declarar sua renda e pagar menos impostos, possui mais de 30 emissoras de TV e Rádio – o que seria crime se o governo pautasse o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, que visa regular a propriedade cruzada dos meios de comunicação – principal método de perpetuação e hegemonia dos grandes conglomerados comunicacionais, que consiste em dividir as propriedades entre os familiares – já centenária prática em solo brasileiro que lembra o período coronelista.

A comunicação, desta forma, torna-se um dos segmentos mais rentáveis do mercado brasileiro. Segundo lista Forbes, o homem mais rico do país, Jorge Lemann, sócio da AB InBev, possui R$ 83 bilhões. Em comparação, a fortuna da família Marinho, da Rede Globo soma R$ 70 bilhões (sexta família mais rica). Os próximos três da lista, Edir Macedo (Record), Cívita, (Grupo Abril), e Silvio Santos (SBT), juntos e somados não ultrapassam 7 bilhões, nem 10% do patrimônio da família Marinho. Discrepante, não?

Porque Sartori não sobe no palanque para que a RBS e a Gerdau paguem o que devem? Porque ele diminui o papel do estado para culpar a classe trabalhadora? Muitos dizem que Sartori não tem política e não sabe o que está fazendo. Pelo contrário, ele tem um programa muito bem definido – por ele e por Cairoli, empresário privatista e vice-governador do Estado. Só expressa uma certa vergonha e dificuldade em falar sobre esse programa. Sartori é do mesmo PMDB de Cunha, Calheiros e Temer. Não nos assustaremos se no próximo período ocorrerem privatizações e mais arrocho de salários – este é um caminho visível e perverso. É dever de toda a militância anticapitalista e de democratização da mídia empenhar-se na denúncia do caso de sonegação fiscal investigado pela Operação Zelotes. É inadmissível que o governo siga permitindo a concessão pública de uma empresa que sonega impostos e enquanto aprova mais arrocho ao funcionalismo público e aumento de impostos para a população. Das ruas não sairemos!

 

Lucas Pitta Klein é coordenador de comunicação do DCE da UFRGS, membro do DACOM UFRGS, da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação (ENECOS) e do Juntos! Pela Democratização da Comunicação

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