Abraçamos quem?

Jéssica D'Ornellas 17/set/2015, 15h00

Nas últimas notícias os jornais e as redes sociais voltam-se para o lamentável ocorrido na costa da Turquia, onde botes afundam causando a morte de pessoas, entre elas crianças, em uma tentativa de fuga da Síria que hoje se encontra devastada pelo conflito entre o Estado Islâmico e forças curdas. A foto Aylan Kurdi, menino sírio morto por afogamento na tentativa de chagar à Europa, rodou o mundo e campanhas mundiais de solidariedade aos refugiados cresceram. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), se manifestou em prol do acolhimento ao povo refugiado da Síria, relatando, “Os sírios estão vindo para São Paulo e estamos recebendo com muito orgulho e com muito prazer. A solidariedade de São Paulo é reconhecida por todas as comunidades de imigrantes de São Paulo”.

Desde 2010, a imigração de haitianos, angolanos, colombianos, congoleses, senegalenses e sírios que deixaram a terra natal, ganhou força no Brasil e hoje são quase 10 mil o número de refugiados no país. No final do ano passado muitos que residiam no Acre, espalharam-se por todo o país, em grande parte para o Rio Grande do Sul, na maioria homens, negros e pobres, que buscavam empregos para ajudar seus familiares que ainda aguardavam por dias melhores em sua terra natal.

Em janeiro de 2013, na cidade de Santa Maria, uma boate incendiou, matando 243 pessoas e deixando 680 em acompanhamento clínico e psicológico. Acidente? Fatalidade? O incêndio foi apurado e entre um sinalizador usado de forma incorreta em um lugar fechado, havia uma boate que funcionava de forma irregular. Na época diversas denúncias envolvendo troca de favores entre o poder público e os empresários da boate, caíram na mídia, houve comoção mundial no caso, mas até hoje familiares e sobreviventes aguardam por justiça.

Na manhã do útlimo dia 12 de setembro, na mesma Santa Maria, por volta das 8h30min, um jovem senegalense, Cheikh Oumar Foutyou Diba, de 25 anos, foi assaltado e teve parte do corpo queimado, enquanto dormia, na Avenida Rio Branco, na área central da cidade. Diba relatou a polícia, que dormia na rua após não conseguir chegar no horário que é estipulado na ‘Casa de Passagem’, hoje o único centro de referencia para pessoas em situação de rua na cidade. Além das bijuterias que vendia para sobreviver, foram levados R$500,00 e seu colchão incendiado, causando ferimentos nas pernas e no quadril do jovem.

Diba é jovem, pobre e negro, nada muito diferente da realidade das nossas favelas. Hoje no Brasil, milhares de jovens são mortos, vítimas de uma guerra as drogas que já mostrou estar falida. Guerra que matou Ronaldo, DG, Amarildo, Claudia e tantos outros. Mas o que nos questionamos é a ausência da mídia e a omissão da sociedade quando um pobre e negro é morto, ou quando um jovem imigrante, também preto e pobre, tem seu corpo queimado.

Em um país conhecido internacionalmente por sua diversidade étnica, o racismo é perverso e mesmo ele sendo negado pela sociedade, não está mais de baixo do tapete, ele está escancarado sendo conivente com a morte do povo negro.

Para estes não estamos de braços abertos? Para estes imigrantes não existe comoção nacional?

O Coletivo Juntos! se solidariza e mostra total repúdio ao ocorrido com Diba, seguiremos na luta por uma sociedade menos racista e xenofóbica! Imigrantes, sejam bem vindos!

Jessica D’ornelas é estudante de Serviço Social UFSM e GTE RS