Entre sírios e favelados: as fronteiras que ousamos cruzar

Marcela Lisboa 22/set/2015, 17h09

O mundo parou para pedir ajuda aos refugiados da Síria. Fotos, vídeos e uma profunda e legítima comoção tomou conta de parte do planeta. A foto do menino Aylan foi uma das mais compartilhadas nas redes sociais nos últimos dias. A frase escrita em um cartaz dizia: Se importem com as pessoas, não com as fronteiras. Isto soou como um hino nos lábios dos que desejam um mundo mais humano.

Mas em meio a este processo, uma pergunta não deixou de ecoar pela minha mente: quais são as nossas fronteiras?

Em tempos de humanização seletiva e de lutas explodindo ao redor do mundo em busca de emancipação social e de garantia de diretos. Quais são as nossas fronteiras? Os acontecimentos dos últimos dias nos mostram não apenas que o racismo presente, tanto no Estado quanto na população, nos tornou insensíveis às mazelas sociais mais escrachadas e próximas a nossa realidade, mas como os anos de ausência de políticas públicas e de aprofundamento de desigualdades sociais não podem mais ser negados. Já dizia Mano Brown, somos “o efeito colateral que seu sistema fez”.

Adolescentes do Jacaré, da Penha e das regiões periféricas do Rio, tal como os Sírios, decidiram cruzar a fronteira que divide muito mais que “zona sul e zona norte”, eles cruzaram as fronteiras da invisibilidade rumo às páginas dos jornais. Nenhum motim armado, ninguém na linha de frente. Eles não fogem de um tirano, fogem da guerra. Reproduzem a guerra a qual estão sujeitos.

A violência que chegou a Zona Sul do Rio sempre se fez presente em nossos territórios. A bala de borracha aqui sempre foi de verdade. Os tanques de guerra, os tapas na cara do policial, a invisibilidade e o desprezo são comuns aos que sempre foram rejeitados pelo poder público.

Emicida, em seu mais recente álbum, retrata o exato momento em que os empregados da casa se revoltam contra os patrões. Eles decidem cruzar a fronteira estabelecida.

Nós, moradores de periferia, ao ascendermos socialmente, cruzamos uma fronteira. Ao entrarmos nas universidades, teatros, museus e, agora, praias, cruzamos uma fronteira. Ressignificamos o espaço. Entender a cidade como parte de um território que é tão nosso quanto dos de cima é um processo no qual estamos sujeitos. Não daremos nenhum passo atrás. Não “vamos invadir sua praia”, como cantaram os Titãs. Não vamos invadir porque a praia é nossa. A cidade é nossa. E o único modo de contermos a violência, que hoje não se restringe apenas a favela, é buscando um outro sistema, uma outra forma. A receita talvez ainda seja desconhecida, mas a resposta certamente virá debaixo para cima.

Ao chegar em casa, encontrei alguns meninos comentando sobre a praia do fim de semana. Um disse que sentiu medo e que talvez substitua a ida ao posto 8 pelo banho de borracha. Já o outro disse que o mundo era seu e ninguém podia impedi-lo de ir a praia. Olhei para ele e sorri. A violência não pode ser nosso método. Enquanto arrastões são respondidos com agressões de justiceiros, ou com mais apartheid do Estado, a barbárie estará estabelecida.

É necessário compreender que favela não é apenas violência. Somos arte, cultura, beleza e resistência. E enquanto alguns sobem nos ônibus e quebram janelas a fim, também, de chamar a atenção para os anos de descaso sofridos, outros lutam para permanecer cruzando as fronteiras.

O mundo pode ainda não ter compreendido, mas não estamos dormindo e tampouco nos calaremos. Se fronteiras nos são impostas, nós as cruzaremos.