Machismo e adolescência: muito além do direito ao shortinho

29/set/2015, 19h27

Ninguém nasce machista. Desde pequenos, somos ensinados a reproduzir uma séria de normas do status quo que coloca as mulheres diversos passos atrás dos homens na possibilidade de uma vida digna. Posto que o machismo não é algo “natural”, e sim, ensinado e reproduzido nas nossas famílias, escolas, na Igreja e televisão, é mais do que possível destruí-lo. A educação é nossa peça chave.

Segundo uma pesquisa feita em 2013, 65,6% das meninas brasileiras são obrigadas a limpar a casa, enquanto somente 11,4% dos meninos possuem essa tarefa. Apenas 11,6% dos meninos arrumam suas camas e 81,4% das meninas o fazem. Além de afetar no rendimento escolar, a desigualdade no tratamento de meninas e meninos dentro de casa, nos designa desde pequenas às tarefas do lar como algo apenas de nossa obrigação.

Quando crescemos, a imposição de regras se aprofunda. Mesmo em 2015, a menstruação, o beijo na boca, a roupa curta, o sair sozinha, a sexualidade, viram tabus criados em cima de nós. Coisas que não podemos discutir nem dentro de casa, nem dentro da escola. Quando menstruamos e modificamos nossos corpos, portanto nos tornamos “moças”, passamos – antes mesmo de entender o que é isso – a ser sexualizadas. Meninas negras ainda mais.

O maior símbolo disso é o uso do shortinho na escola. Diversas escolas o permitem apenas no ensino fundamental. A partir do momento que você entra para o ensino médio, deve adequar-se para os colegas não passarem a mão em você. A partir do momento que você não é mais vista como criança pela sociedade, deve privar-se de suas liberdades até então básicas – como o direito de não sentir calor -, para não ser confundida com uma “puta”, para não ser estuprada, agredida, rodada.

A luta pelo direito das meninas de usar shortinho na escola é fundamental. Nunca houve nenhum escândalo quanto às vestimentas dos meninos, ao mesmo tempo em que quase a totalidade das escolas dão advertências às meninas que não seguem a tão famigerada “norma”. Porém, é importante salientar que nas escolas mais periféricas esse debate quase não existe, a sexualidade é algo muito presente. Colegas e professores dão-se o direito de passar a mão, fazer piadas.

Nos cursinhos, escolas privadas, públicas, da periferia, campo ou cidade, a educação ainda está parada no século XIX no que tange ao direito e liberdade das mulheres. Ainda que hoje estudemos mais, nos envolvamos mais no movimento estudantil, o mundo ainda é feito por e para os homens. A educação precária e sexista deixa marcas para nossa vida inteira.

Por isso é fundamental garantirmos uma educação voltada para o gênero, com as políticas dos PME’s, PEE’s e PNE, que prepare os/as educadores/as para tratar com seriedade e sensibilidade o machismo. É inaceitável que direções se calem diante de situações de abuso e de bullyng. Aquela piada que o colega ou professor segundos depois nem lembram mais, para as meninas se tornarão uma das muitas cargas que carregaremos nas costas. Tu cresceu, é mulher, aguenta. De jeito nenhum. O mundo também tem que ser nosso.

 

por Fabiana Amorim, diretora da UBES pelo Juntos! e Oposição de Esquerda

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