A crise imigratória no Brasil, uma face do racismo

Guly Marchant 21/out/2015, 10h12

O covarde assassinato do imigrante haitiano Fetiere Sterlin na cidade de Navegantes, litoral de Santa catarina, nos levanta um pergunta, quem são os inimigos da sociedade? Com 33 anos, o imigrante que deixou seu país com a promessa de um futuro melhor no brasil, ao invés disso, ele entrou a morte. Fetiere era imigrante haitiano e negro e caminhava com a namorada e outros amigos pela rua na noite de sábado, todos negros. Na ocorrência policial, antes de ser atacado por um grupo de dez pessoas e ser esfaqueado, os agressores chamaram Fetiere de “macici” um xingamento homofóbico em crioulo. A policia investiga o fato como crime de ódio, mas trata-se de mais caso de xenofobia e de racismo.

Durante últimos meses a crise imigratória tem sido uma das expressões mais utilizadas e é um dos maiores sintomas da crise econômica mundial. Milhões de pessoas se vêem obrigadas deixarem suas casas para fugir da fome como no Haiti e do ataque de grupos extremistas como o Estado Islâmico, que tem atuado no norte da África. Na Europa, para onde rumam os imigrantes africanos, as fronteiras seguem fechadas e no dia 15 de outubro, foi registrada a primeira morte de imigrante vítima das forças policiais europeias. O jovem afegão que tentava cruzar a fronteira da Bulgária e Turquia foi morto com um tiro no pescoço disparado pela polícia búlgara.

No Brasil não há um muro na fronteira como em Israel, tampouco uma política de fechamento das fronteiras para imigrantes como na Europa. Do contrário, a política de imigração é quem traz haitianos, senegaleses, angolanos e outros tantos ao nosso país. Então por que Fetiere morreu? Não somos nós um povo receptivo e simpático? Que xenofobia seletiva é essa?

Fetiere, repito, além de haitiano, era negro, essa é a questão. Os imigrantes que tem chegado ao Brasil são majoritariamente negros. Por acaso quantas vezes lemos notícias de ataques, mortes por espancamento ou até mesmo colchão queimado de imigrantes alemães, italianos ou poloneses? Durante muito tempo nosso país tenta sustentar uma ideia de miscigenação e de igualdade social, quando na verdade sabemos que é mentira. Os negros no Brasil tem renda 40% menor que a dos brancos, a taxa de analfabetismo é duas vezes maior entre os negros, 73% da população carcerária são negros e 77% das vítimas de morte violenta são negros. Ou seja, somos um país racista.

Ao negar esses dados e sustentar a ideia de país miscigenado causamos sérios danos a população negra e reforçamos esteriótipos que se acirram em momentos de crise, como a que vivemos. Isso se comprova quando lembramos dos diversos negros amarrados em postes e espancados (alguns até a morte); quando lembramos do grupo de pittboys que se organizou para perseguir negros nas praias da zona sul do Rio e a polícia não impediu um série de agressões racistas; quando uma jornalista ou árbitro de futebol são chamados de macacos por estarem apenas exercendo sua profissão; e, principalmente, quando jovens negros são mortos pela polícia e a primeira informação é a de que eram traficantes.

A verdade é que desde a abolição da escravidão no Brasil não houve uma preocupação do estado brasileiro em inserir o negro como parte da sociedade. Assim, as comunidades e os negros organizaram-se a margem da sociedade e sempre foram um problema para o estado que nega seus direitos e passou a tratá-lo como um inimigo. Ao invés disso, o estado brasileiro conserva leis (criminalização das drogas e autos de resistência) e instituições (polícia militar) que exercem um controle social do negro e impedem sua emancipação. O racismo no Brasil é algo estrutural e mata todo dia, precisamos enfrentar isso para que mortes como a de Fetiere não se repitam. Precisamos parar com o genocídio do povo negro. O inimigo é outro!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017