A invisibilidade negra

Eduardo Silva 14/out/2015, 16h29

Quando eu era criança, ao assistir filmes de super heróis, via nestes a capacidade de voar e de ter a invisibilidade dos personagens fictícios, a idéia de obter a liberdade do vôo de um pássaro e a possibilidade de não ser visto me era encantadora, agora, já crescido, percebo que não é necessário ter super poderes para que nos tornemos invisíveis, pois, a sociedade transforma em invisíveis todos que não se enquadram em um padrão social preestabelecido.Como nasci negro, minha etnia se enquadra fora deste padrão.

Assim sendo, a invisibilidade que antes me fascinava, agora, se transformou em algo avassalador: já não suporto perceber que o fato de pertencer a uma etnia específica dificulta tanto minha vida social e a de outras pessoas como eu. É profundamente agressivo perceber que ser negro no Brasil te faz ter dificuldades em todas as áreas da vida. No mercado de trabalho somos deixados de lado e não somos vistos por empregadores; nas relações interpessoais de amizade e namoro, o mesmo se repete; somos esquecidos como se não existíssemos como escolha viável nos relacionamentos afetivos,nos tornamos invisíveis nesta sociedade real e diferente dos filmes “hollywodianos”, não há encanto algum em ser assim.

Talvez aquilo que mais se assemelhe com os filmes seja a reação das pessoas diante do diferente.

Lembro-me que em filmes sobre pessoas com poderes extraordinários a reação daqueles que não possuíam tais poderes era ora de espanto, ora de exclusão e agressão psicológica e alguns casos esporádicos de aceitação.

Alguns personagens, assim como na vida real, eram tratados como aberrações, seres que não deveriam existir como se ameaçassem a paz social apenas com suas existências. Deste modo, percebo uma real semelhança com a realidade da negritude brasileira nesta sociedade preconceituosa onde vivemos, pois não é raro ver reações de espanto com os traços característicos da etnia da qual pertenço e sentimentos negativos vindos de pessoas que parecem acreditar que o simples fato de existir pessoas negras não é algo agradável.

Vivemos uma real invisibilidade que nos foi imposta há milênios! Somos excluídos por mero preconceito, pois não há nada que justifique tamanha agressão física e psicológica que os negros e negras sofreram – sofrem e infelizmente ainda sofrerão neste país.

Quando ecoamos gritos de visibilidade, nos tentam calar de todas as formas possíveis, nos impedem de demonstrar o quão cruel é o racismo existente em nossa pátria, nos acusam de “vitimistas”, de exagerados, de pessoas que querem apenas privilégios. Mas, qual privilégio queremos? Seria privilégio o reconhecimento social de nossa humanidade, de nossa etnicidade? Exageramos quando exigimos respeito por nossas características étnicas? Estamos nos vitimizando ao exigir igualdade racial? Estas são perguntas que nos rasgam por dentro quando recebemos acusações de pessoas que não compreendem nossas reivindicações.

Nós, negros e negras,não suportamos mais esta invisibilidade social que já perdura gerações e lutamos a cada dia para que ela deixe de existir.Contudo, a luta é profundamente árdua e cansativa e exige diariamente uma força sobrenatural para suportar todas as dificuldades concernentes a esta batalha contra o preconceito, uma força equiparada aquela dos personagens da ficção cinematográfica, com a diferença de que na vida real,a batalha não termina quando sobe os créditos.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017