A quem serve a desigualdade de gênero? Uma resposta a Leandro Narloch

Paula Kaufmann Sacchetto 06/out/2015, 17h26

No último dia 29, o colunista da revista Veja, Leandro Narloch, escreveu em seu blog o texto “Ganhar o mesmo que os homens é realmente vantajoso para as mulheres?”. Em pouco parágrafos, o “Caçador de Mitos” (expressão que dá título ao blog de Leandro) levanta uma série de argumentos para justificar sua injustificável postura machista e termina o texto dizendo que “Para melhorar a estatística, seria preciso tornar as mulheres menos livres”.

É inadmissível que o colunista ache aceitável publicar um texto como este enquanto mulheres têm que se submeter às piores condições de trabalho para se sustentar, realizar dupla ou até tripla jornada de trabalho para ter a renda necessária para a sobrevivência da sua família. Assim como o escritor elencou três pontos para explicar seu posicionamento inexplicável, respondo abaixo ponto a ponto o porquê desta argumentação ser inaceitável.

1. Os postos de trabalho não são o motivo da desigualdade salarial entre homens e mulheres

O motivo de tal desigualdade é o machismo. Narloch diz que um dos motivos para as mulheres receberem salários menores em comparação aos homens é porque elas preferem trabalhar nas áreas de educação ou RH. Segundo o colunista, seria, assim, necessário “impedir que tantas mulheres trabalhem com educação, recursos humanos ou pediatria”.

Primeiramente é necessário deixar claro que existe na nossa sociedade uma divisão sexual do trabalho, que determina que homens são eficientes para alguns tipos de trabalhos (aqueles envolvam força física, trabalho intelectual, etc.) e mulheres para outros (relacionados ao cuidado, à educação, à saúde, etc.). É falso afirmar que as mulheres preferem tal áreas. Nós somos educadas a sempre cumprir com os papéis sociais que são comumente associados às funções maternais. Com a ida das mulheres ao mercado de trabalho, isso se refletiu na maior ocupação de cargos que tenham essas funções.

Além disso, a afirmação de que ao escolherem os mesmos postos de trabalho, as mulheres aumentam a oferta de emprego na área em questão, diminuindo a média salarial é também falsa. A desigualdade salarial, neste caso, não está relacionada com a oferta de mão de obra, mas sim ao gênero. Não fosse assim, o que explicaria que mulheres que ocupam os mesmos postos de trabalho que outros homens ainda recebem menos que eles? O que explicaria que a presidenta mundial da GM receba bem menos do que seu antecessor?

2. As mulheres estão nas ocupações com piores condições de trabalho

O colunista sugere que para atingir a igualdade salarial seria necessário “convencer ou obrigar as mulheres a optar por trabalhos desagradáveis”. Narloch aponta que os homens são maioria nas vagas de coveiros, desentupidores de esgoto, soldadores, motoboys, pedreiros, carregadores, mineiros e estivadores. Aparentemente, ele se esquece de citar que as mulheres são maioria em postos de faxina, tecelagem e ocupam 90% dos postos de trabalho doméstico, setor no qual em dez estados brasileiros o número de trabalhadoras sem registro é maior que 90%. Segundo o “caçador de mitos”, o problema reside no fato de os homens ocuparem os cargos onde acontecem 75% dos acidentes de trabalho.

Mais uma vez: as mulheres não ocupam estes postos de trabalho (desentupidores de esgoto, pedreiros, carregadores, etc.) porque não querem? Ou seria porque o mercado de trabalho lhes reserva outras ocupações, igualmente ou ainda mais precarizadas? O colunista por acaso conheceria algum patrão disposto a contratar uma mulher para o cargo de pedreira, caso uma boa alma se dispusesse? Na opinião do nobre escritor, as mulheres devem se acidentar mais para receberem melhor?

Segundo o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, as mulheres têm prioridade em alguns empregos, porém, são justamente aqueles com piores condições de trabalho, com remunerações baixas e sem carteira assinada. O problema não reside apenas nos cargos que as mulheres ocupam. Afinal, como já vimos anteriormente, mulheres recebem salários menores que homens até quando ocupam os mesmos postos de trabalhos!

3. A mulher passa toda sua vida trabalhando o dobro que o homem e sem receber nada por isso

Por fim, Leandro Narloch diz ser necessário “convencer ou obrigar as mulheres a permanecer na carreira até a aposentadoria”. Citando uma pesquisa realizada pela Whirlpool, que mostra que 19% das funcionárias da empresa sonham em serem diretoras, enquanto 32% dos homens têm esse objetivo, o colunista conclui que “parte da desigualdade se explica pela menor vontade das mulheres em vencer na carreira.”

Falta de vontade: essa é a explicação do escritor para a desigualdade. Não passa pela cabeça dele que, das mulheres que compõe os 81% daquelas que não sonham com cargos altos, provavelmente todas ouviram que os cargos de liderança não eram para elas? Ou viram nas TVs, jornais ou até nas aulas de faculdade que os grandes exemplos de profissionais bem-sucedidos são homens?

Além disso, o colunista prefere não ver aquilo que todos sabemos: as mulheres trabalham duas vezes mais do que os homens e não recebem salário para isso. A dupla jornada de trabalho da mulher implica que ela deverá, quando chegar em casa depois do seu emprego, arrumar a casa, alimentar os filhos, lavar e passar as roupas – tudo isso enquanto seu marido descansa. E Narloch se impressiona que as mulheres parem de trabalhar antes? Será que Narloch já fez algum trabalho doméstico na vida? É bem provável que não.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão, SOS Corpo e Data Popular aponta que 73% das mulheres realizam tarefas domésticas nas suas próprias casas. As entrevistadas dizem que, ainda quando têm ajuda, as mulheres são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e a participação masculina é insignificante.

A desigualdade salarial serve ao sistema em que vivemos: ao fazer as mulheres acreditarem que devem se contentar com o pouco que recebem, os patrões e os poderosos aumentam sua margem de lucro e mantem os baixos padrões de qualidade do trabalho em vigência. No Capitalismo, é necessário que haja trabalhadores de segunda linha, um exército de reserva que precise estar submetida a empregos onde a taxa de exploração seja ainda maior.

Para Leandro Narloch e para muito homens brasileiros, a resposta para a diminuição da desigualdade salarial é cercear a liberdade das mulheres, culpabiliza-las pelo preconceito que sofrem, invisibilizar a dupla jornada de trabalho exaustivo, dar um ultimato a todas as mulheres trabalhadoras: se querem ter um salário digno, que se submetam às nossas regras do jogo.

No entanto, nós sabemos que não estamos sozinhas e que a nossa luta cresce a cada dia mais. Homens como Narloch ainda vão de envergonhar muito de publicarem um texto tão machista e perverso como esse. Não pararemos até que sejamos todas livres!