Conquistamos acesso, mas almejamos Revolução!

Cilas Machado 29/out/2015, 14h38

à negritude universitária,

A educação brasileira é marcada por uma trajetória de privilégios sociais que retira uma parcela da sociedade das benesses da “intelectualidade”, de um dos direitos fundamentais. Um dos seus principais privilégios é o de raça que não se pode compreender na sua totalidade sem um corte de classe. Este privilégio se movimenta na imposição social da condição humana, onde os filhos de sinhá e de sinhô – estudam; enquanto filhos de pobre e preto – trabalham. Se é indígena – aprende, mas só o que o homem branco exige que aprenda.

A educação no Brasil é fruto de uma história que se manifesta em antagonismos de classes. Os dominantes, como diria Darcy Ribeiro, tem um projeto educacional: difundir e manter um povo chucro e feio, no engolfo de uma miséria inestimável. Os “dominados”, se querem um mínimo de informação têm que estarem postos em submissão do ensino ideológico de uma elite mesquinha. Não é à toa que uma das frases célebres de Marx é que “as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias da própria classe dominante”; ideias essas que são razão de um projeto de classe que se manifesta em tudo aquilo que de forma ou outra está no permeio da vida social.

O histórico educacional que nos consolida enquanto país é de uma submissão intelectual e mesquinhez humana sem precedentes. De tal modo que o ensino no Brasil é pautado no que há lá fora e desprendido das realidades internas. É alicerçado na negação da cidadania e da humanidade do outro, pelo qual nós tivemos muito que lutar para ser libertos e ter o mínimo de acesso as estruturas educacionais, mesmo que estas ainda estejam nos oprimindo dia a dia e tentando silenciar nossas capacidades e subtrair nossa intelectualidade.

“As cotas foram só o começo, vocês nos devem até a alma” é a frase central que deve orientar o negro e a negra hoje universitários. Não há razão de agradecimento àqueles que não transformaram e ou transformam nossas condições socialmente produzidas e atuais. O que há, para nós pretos que adentramos a universidade é a luta, somente ela. Uma luta que muna de poder nossos irmãos e irmãs periféricos, dizendo que eles têm direito ao espaço que nosso próprio povo construiu e que sempre nos foi negado historicamente. Dizendo que temos que usar as ações afirmativas, mas dialogando com uma luta muito maior, uma luta que também encampe o fim das cotas! Sim, o fim de uma política que muito nos deu e dá acesso. O fim delas unido com o fim dos vestibulares: por um acesso irrestrito que tenha centralidade na reparação histórica e humanitária. A nós cabe dizer que conquistamos acesso, mas almejamos revolução!